what did jack do? | they say real love is a banana.

            [What did Jack do?, David Lynch, E.U.A., 2017]

Num bar sombrio de uma estação de comboios, um cenário minimal composto por uma mesa, duas cadeiras e uma janela ao fundo que se assemelha a uma tela de cinema, David Lynch interroga um suspeito. O indivíduo é um pequeno macaco de olhos inocentes e lábios humanos, voz rouca e arrastada e discurso bastante evasivo. Chama-se Jack Cruz.

Durante 17 minutos, o detective sério e maquinal vestido de negro, a lembrar o agente Dale Cooper de Twin Peaks, tenta descortinar O Que Jack Fez, insinuando que ele será o responsável pelo assassinato de alguém chamado Max, envolvendo uma galinha femme fatale, Toototabom, por quem Jack está loucamente apaixonado. As perguntas do detective remetem para um passado confuso, associações a grupos de galináceos ou ao Partido Comunista ou outras acusações a que Jack se vai esquivando, evitando argumentar ou tentando mudar de assunto. O diálogo é lento e pautado por pausas dramáticas. Chega, entretanto, uma empregada vestida a rigor, que serve café e informa que um assassino anda à solta. Há momentos em que Jack quase se irrita, outros em que o diálogo parece não fazer sentido, um tiroteio fora de cena e uma apoteose em que Jack canta uma canção de amor à sua amada Toototabom. A trama policial, a neblina dos cigarros e o chiaroscuro da fotografia granulada evocam elementos do cinema noir, tão habituais no cinema de Lynch como o ambiente sinistro e onírico da cena. O género – o do cinema do absurdo.

A curta-metragem, quase integralmente orquestrada por David Lynch (homem dos sete instrumentos, além de protagonista, aqui responsável pelo argumento, realização, cenografia, design de som, mistura sonora e produção), foi criada em 2017 mas apenas viu a luz do dia a 20 de Janeiro, data do 74º aniversário do cineasta, integrando o catálogo da Netflix. É uma pequena prenda para aficionados (Lynch não filmava há alguns anos), carregada de referências autorais em que, como sempre, encontramos mais questões do que respostas. Escusado será dizer que não chegamos exactamente a saber O Que Jack Fez, mas reencontramos Lynch em estado puro.

★★★★★★★

diálogos da psicologia | filmes para este tempo.

Pode o cinema ter um papel importante no isolamento? Pode tornar-nos mais próximos? Pode o nosso actual estado de espírito proporcionar outra leitura de filmes que já vimos dezenas de vezes? Porque não conseguimos resistir aos filmes-catástrofe em tempos de pandemia? Quais os desafios que a própria indústria do cinema enfrenta?

Uma conversa com Mário Augusto e Rui Pedro Tendinha promovida pela Ordem dos Psicólogos Portugueses.

a certeza da incerteza.

edite queiroz/ tales from the village and beyond

Em 2020, o mundo foi obrigado a mudar. Uma doença nova, com muitas incógnitas e de desfecho incerto propagou-se em semanas a todo o globo, instalando uma crise à escala planetária, para a qual ninguém estava preparado. Os países foram ditando medidas de contenção do contágio que passaram por recomendações muito específicas do ponto de vista da higiene e etiqueta respiratória, pelo encerramento de escolas, estabelecimentos comerciais e locais de trabalho e pela recomendação de isolamento físico da população. Por si só, este confinamento imposto, produziu desde logo um impacto muito significativo em todas as esferas da vida – no trabalho, na vida familiar, na vida social. A comunidade e as famílias foram obrigadas a rápidos e enormes ajustes ao seu dia-a-dia, obrigadas a cumprir medidas de segurança, a relacionar-se de outra forma, a gerir os efeitos emocionais da situação. Muitos idosos estão, há meses, totalmente isolados das famílias. Dentro das casas, a partilha continuada do mesmo espaço, obrigando a uma proximidade constante à qual muitos não estão habituados, tem sido também identificada como factor adicional de stress. Numa situação de pandemia, sendo esperado que a ansiedade, medo e frustração se intensifiquem, é também provável que os níveis de tolerância se ressintam, as dificuldades de comunicação aumentem e dinâmicas relacionais disfuncionais se agravem, potenciando vários tipos de conflitos (discussões, casamentos desfeitos ou mesmo violência).

Organizações de todo o mundo, e também em Portugal, fizeram esforços no sentido de estabelecer procedimentos de trabalho à distância para parte ou totalidade dos trabalhadores, por forma a possibilitar a manutenção dos serviços e o compromisso com a comunidade. Noutros casos, os trabalhadores foram enviados para casa em situação de layoff e outros foram mesmo despedidos, um estremecimento que naturalmente fez escalar ainda mais os níveis de ansiedade e receio em relação ao futuro. Para determinados sectores (por exemplo, o turismo ou a cultura), a situação implicou uma paragem total das suas actividades, sem previsão de retoma. Diversos são também os desafios para os que ficaram a trabalhar a partir de casa, implicando a adaptação a novas formas de organização das tarefas e à reorganização de rotinas. Para quem tem filhos ou crianças a seu cargo, as rotinas de teletrabalho exigem conciliar afazeres domésticos com o acompanhamento dos filhos nas actividades de lazer e de ensino à distância e o eventual apoio a outros familiares. Com pouco tempo para descansar ou para o auto-cuidado, estes pais ficam rapidamente exaustos e em risco de burnout.

Embora a COVID-19 seja um fenómeno global, o desconhecimento, fake news e boatos sobre a doença têm também potenciado não apenas a generalização do medo, mas a estigmatização de indivíduos de certas etnias, nacionalidades ou localidades, alimentando falsas verdades, minando a coesão social e conduzindo ao potencial isolamento de determinados grupos. O efeito do estigma social é tristemente paradoxal: a possibilidade se ser rotulados leva a que muitos ocultem que estão doentes e não procurem ajuda médica, desencorajando as medidas de distância social e agravando assim a propagação do vírus.

No mundo inteiro, muitos vão perdendo familiares e amigos para a COVID-19. Como se não bastassem as perdas súbitas (que tradicionalmente originam processos de luto mais difíceis), as normas vigentes sobre cuidados pós-morte da Direcção-Geral da Saúde (DGS), para evitar que os funerais se tornem focos de contaminação (à semelhança do que sabemos ter acontecido noutros países), indicam que no máximo 10 pessoas, em distanciamento físico, podem acompanhar os momentos finais. A impossibilidade cumprir rituais de despedida, da participação da comunidade no funeral e das manifestações de solidariedade e carinho (abraços, beijos) pode complicar o processo de luto, limitando o apoio emocional disponível e constituindo um factor adicional de stress e angústia para os enlutados. É uma realidade transforma práticas culturais de enorme importância e sugere que o luto comunitário, para além do luto individual e das famílias, é uma dimensão que não pode ser negligenciada:  Em tempo de pandemia, a própria comunidade tem que lidar com o significado da morte e com as ilações certas ou erradas que daí decorrem, confrontados mais uma vez mais os seus membros com os receios e incertezas, com preocupações com a saúde e segurança, com a ideia da morte e com pensamentos globais sobre o futuro.

Sabemos que as perdas que envolvem circunstâncias ambíguas ou resultados imprevisíveis são as mais complexas de gerir, porque nos paralisam e comprometem a acção – e a incerteza é o maior repto desta pandemia. O excesso de informação diária (alarmista, por vezes contraditória ou mesmo falsa) e as alterações que provocou nas demais rotinas conduz a sentimentos agravados de dúvida em relação a todas as dimensões da vida e obriga a um estado permanente de alerta. Não sabemos como evoluirá a propagação, quanto tempo conviveremos com uma situação de perigo iminente, se haverá uma segunda vaga, que constrangimentos, a médio e a longo prazo, toda a situação trará no futuro: perda de rendimentos ou de emprego, dificuldades ou abandono escolar, se e quando poderemos retomar planos suspensos. As reacções normativas ao stress gerado por este estado de alerta –  que podem incluir problemas de sono e de apetite, dificuldades de concentração, perda de prazer nas actividades quotidianas, tristeza profunda, tendência para isolamento ou comportamentos de risco (por exemplo, consumo excessivo de álcool, tabaco ou outras substâncias, violência interpessoal) – podem transformar-se num quadro de ansiedade verdadeiramente grave e paralisante (por exemplo, crises de ansiedade, ataques de pânico, ideação suicida). Para grupos de risco (idosos, doentes crónicos, portadores de deficiência, população institucionalizada, vulnerável e desfavorecida) ou para os que sofrem de problemas prévios de saúde psicológica, a situação será ainda mais complexa. No caso dos idosos, mais isolados e frágeis, o confinamento obrigatório pode contribuir para uma solidão ainda mais profunda, acompanhada do receio de morrer e não voltar a ver filhos e netos.

Os efeitos das mudanças impostas pela contingência de viver com a COVID-19 serão extensos, duradouros e com impacto potencial na qualidade de vida de milhões de pessoas. Mas o impacto será profundamente desigual: Criará e agravará desigualdades. Implicará muitas perdas e muitos lutos – não apenas pelas vítimas, mas pela economia, pelos empregos, pelas dinâmicas sociais perdidas, por planos gorados, por todo um modo de vida que subitamente se transformou. Os estudos indicam que, em situações de crise, os lutos são frequentemente adiados: as pessoas concentram-se em sobreviver, em responder às exigências do dia-a-dia. Mesmo perante a morte, a tristeza é como que arrastada no tempo, até que um dia se possa realizar uma missa, uma homenagem, uma verdadeira despedida. O impacto psicológico pode tardar, mas é certo que assistiremos a uma crise generalizada de saúde psicológica no pós-pandemia. E embora a reacção psicológica à crise seja variável e dependa largamente dos recursos (cognitivos, emocionais, sociais, financeiros), o facto é que ninguém está imune, quer ao vírus, quer ao risco para a saúde psicológica. Estudos globais realizados sobre o impacto psicológico de situações de quarentena sugerem, sem surpresas, que uma percentagem considerável da população poderá vir a ser psicologicamente impactada. É muito provável que as pessoas manifestem uma ampla gama de sintomas de stress psicológico, incluindo ansiedade, depressão, variações de humor, raiva, irritabilidade, exaustão emocional, perturbações de sono ou stress pós-traumático. Na China, onde estão já a ser investigados os efeitos do isolamento durante a pandemia COVID-19, as conclusões corroboram os dados de estudos noutros contextos de crise. Os principais grupos de risco para problemas de saúde psicológica a longo prazo serão os profissionais de saúde na linha de frente, crianças e jovens com menos de 30 anos, idosos e população vulnerável (população carenciada, com doença mental ou portadores de deficiência). Os riscos serão maiores em função da duração do período de isolamento, dos níveis de medo de contágio, dos níveis de frustração percepcionados, do acesso a informação clara sobre a doença e dos recursos básicos disponíveis (habitação, alimentação, acesso a cuidados básicos de saúde/medicação) – e, no pós-isolamento, em função da disrupção no orçamento das famílias e da estigmatização/ rejeição social.

Em Portugal onde os números dos chamados distúrbios de ansiedade estão entre os mais elevados da Europa (um em cada cinco portugueses tem um problema de saúde psicológica), bem como o estigma social associado a quem deles sofre, é previsível o aumento das perturbações de ansiedade, depressão ou stress pós-traumático (a venda de antidepressivos e ansiolíticos disparou logo no mês de Março, representando uma subida de 28% face ao mesmo período no ano anterior). Para os profissionais de saúde (expostos não apenas aos focos de infecção, mas a horários de trabalho estendidos, ausência de pausas, perturbação de rotinas alimentares e de sono), emergirão quadros de exaustão biológica, psicológica e social e de frustração com o trabalho que poderá traduzir-se no desgaste empático destes profissionais (diminuição gradual da compaixão), decorrente do envolvimento empático com o ‘material do trauma’ dos pacientes, diminuindo a eficácia e motivação para cuidar do outro. Num país onde quase um milhão de pessoas vive sozinha (de acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística), o impacto dos problemas de solidão na saúde física e psicológica, algo que a pandemia muito tem acentuado, não pode também ser ignorado.

Por isso, a saúde psicológica em tempo de pandemia deveria constituir uma prioridade, para indivíduos e para decisores: Dela depende a capacidade de resposta individual, a gestão adequada da situação, a percepção correcta do risco e a resiliência face aos problemas que sobreviverão à crise pandémica. Contudo, a situação em Portugal não é a mais favorável, sendo que as respostas de prevenção em saúde mental são praticamente residuais. Embora existam cerca de 20.000 psicólogos no país, o Sistema Nacional de Saúde conta apenas com 250 psicólogos ao nível dos cuidados primários e cerca de 1000 no total. É um número claramente diminuto, que impede que muitos portugueses de aceder a esses serviços, já que a maioria não possui recursos para pagar o acesso a serviços de saúde fora do SNS.

É certo que o futuro é incerto. Mas a incerteza é das únicas certezas que temos. Lidamos com ela todos os dias, nos mais pequenos gestos e dimensões – seja a saúde, a família, os amigos, o trabalho, a conjugalidade ou os filhos. Sabendo que quanto maior o tempo de isolamento, maior o risco do ponto de vista psicológico, a Ordem dos Psicólogos Portugueses cedo começou a produzir um conjunto de materiais para a população geral, com recomendações práticas sobre muitos aspectos quotidianos e para vários grupos populacionais específicos, com vista a prevenir o impacto psicológico da pandemia, a promover a adaptação e a resiliência e preparar o regresso à normalidade possível, que decerto será tão ou mais desafiante. Coisas simples podem constituir boas ferramentas para lidar com este momento, permitindo estabelecer metas mais curtas, objectivos claros e focados nos aspectos que podemos controlar, aos poucos, todos os dias. Se formos capazes de atribuir um significado a este momento de adversidade e a todos esforços individuais e da comunidade, será mais fácil lidar com a situação – e preservar a saúde psicológica. No presente, rumo ao novo normal que se avizinha.

[Originalmente publicado na Le Monde Diplomatique, edição portuguesa, edição de Maio de 2020]

webinar | a morte e o luto em contexto de pandemia.

Webinar dedicado à questão da morte e do luto durante a pandemia de COVID-19, promovido pela Ordem dos Psicólogos Portugueses, com as participações de Eduardo Carqueja (Presidente da Delegação do Norte da Ordem dos Psicólogos Portugueses), Maria de Jesus Moura (Directora da Unidade de Psicologia do IPO de Lisboa) e Alexandra Coelho (Equipa Intra-Hospitalar de Suporte em Cuidados Paliativos do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte).

ideias para explicar o coronavírus às crianças.

kelly sikkema/ unsplash

Se têm filhos pequenos e necessitam de se adaptar a uma situação de isolamento ou quarentena, terão provavelmente muitas questões. O primeiro desafio passará por descrever a situação de uma forma que não os assuste e, ao mesmo tempo, os ajude a perceber o que se passa e a ter os comportamentos recomendados. Mas como explicar às crianças uma situação de pandemia? Como lidar com elas em casa? Como mantê-las ocupadas durante tanto tempo? Como manter hábitos de estudo e equilibrá-los com a brincadeira?

Informar e preparar as crianças para esta situação é uma tarefa exigente, mas existem algumas recomendações que podem ajudar. Por exemplo, partir do que elas já sabem (“Já ouviste os teus amigos ou pessoas na televisão a falar sobre uma nova doença?”) para perceber os seus medos e dúvidas e ter a oportunidade de corrigir ideias erradas. A informação dada às crianças deve ser baseada em factos e transmitida numa linguagem simples e adequada à idade, evitando estigmatizar os que primeiro viveram a doença ou os que estão doentes.

Se as crianças se mostrarem tristes ou assustadas, reforcem que esses sentimentos são naturais: todos temos medo de vez em quando. Recorram a situações passadas para lembrar que os momentos maus são passageiros. Antecipem que as crianças podem ficar preocupadas com a saúde (ou até com a morte) dos pais ou avós e, por isso, é importante tranquilizá-las, assegurando que muitos adultos estão dedicados a mantê-las seguras. E se os médicos, enfermeiros e cientistas estão a fazer a sua parte, ensinem que podem também fazer a sua. A Ordem dos Psicólogos Portugueses dá algumas sugestões.

É possível que as crianças façam muitas vezes as mesmas perguntas. É possível que exibam sinais de ansiedade, tornando-se agitadas, mal-humoradas ou muito carentes. Sejam pacientes e encorajem-nos as expressar os medos, tentando ser honesto nas respostas. Se não souberem responder, digam apenas: “Boa pergunta! Não sei a resposta, mas vou descobrir.” Responsabilizem-nos, perguntando o que gostariam de fazer para ajudar (por exemplo, fazer um bolo para uma vizinha mais velha em isolamento).

Para organizar o dia, pode ser útil fazer um plano que se aproxime de um dia normal, respeitando os horários das refeições, de sono, estudo e lazer. Se possível, mantenham as actividades lúdicas da escola (por exemplo, se estão a aprender um instrumento, encorajem a sua prática em casa) ou criem brincadeiras que possam fazer em conjunto (fazer um puzzle até ao final da semana ou um diário em desenhos). Limitem o acesso das crianças à televisão e às notícias sobre a covid-19, que podem assustá-las já que não têm a capacidade de as filtrar e entender. Sobretudo, tentem ser flexíveis e criativos, troquem ideias com outros pais. A situação de isolamento vai prolongar-se e o entusiasmo e cooperação das crianças durante a primeira semana pode transformar-se em impaciência durante a segunda.

No caso de morte de alguém próximo (um familiar, um vizinho), não escondam informação e tentem ser directos. Evitem expressões vagas, como “fez uma longa viagem”, ou metafóricas do tipo “transformou-se numa estrelinha”. As crianças tendem a interpretar no sentido literal e podem alimentar a expectativa de que voltarão a ver a pessoa. Pensem que é importante que entendam a perda de forma realista, sem criar conceitos fantásticos sobre a morte. Não escondam a tristeza: digam a verdade, evitando apenas detalhes desnecessários e respondendo com sinceridade a todas as perguntas.

Nestas situações, é comum que surjam alterações no comportamento na criança. Quanto maior a proximidade, maior a probabilidade de exibição de comportamentos de raiva, irritabilidade ou agressividade, pesadelos ou alterações de apetite. Não raras vezes, as crianças em luto apresentam um aparente retrocesso de desenvolvimento (passando a agir como agiam em fases do crescimento já superadas) que, sendo à partida transitório, denuncia dificuldades em lidar com a perda. Alguns sintomas incluem: medo excessivo do escuro, dificuldades em estar sozinho, molhar a cama, isolamento (perda de interesse em brincar ou interagir com os outros), dificuldades escolares. Algumas crianças podem também apresentar perda geral do interesse pelas coisas, desejo de partir com o falecido, recusar falar sobre a pessoa ou falar excessivamente nela. Nestes casos, a ajuda de um psicólogo poderá ser necessária. Nos dias que se seguirem, tentem assegurar a normalidade dentro de casa: as novas memórias formam-se num novo dia.

Para poder fazer tudo isto, têm que cuidar de vocês. Será mais fácil apoiarem os filhos se estiverem a lidar bem com a situação e na posse de toda a informação necessária (que devem sempre procurar junto das fontes oficiais). Tentem encontrar espaço para trabalhar, descansar e relaxar. No caso dos casais, tentem que cada um possa dar apoio em dias ou períodos alternados. No caso de famílias monoparentais ou em que ambos os elementos sejam trabalhadores de serviços essenciais, procurem uma alternativa de apoio adequada (por exemplo, um familiar que possa estar convosco durante este período).

A forma mais saudável de superar os tempos desafiantes que vivemos é vivê-los dentro da normalidade possível. Para tal, a manutenção das rotinas, horários de refeição, sono, lazer e descanso são fundamentais. Peçam ajuda. Partilhem as vossas preocupações e dificuldades com outros pais, amigos e familiares. Não se esqueçam de que estamos todos no mesmo barco.

[Originalmente publicado no P3]

o luto em tempo de pandemia.

kerry shaver/unsplash

O luto é uma resposta natural à perda. Tem uma dimensão adaptativa e deve conduzir à aceitação da perda ou à transformação da relação. Embora a morte nos toque a todos, permanece um tema paradoxalmente segregado; mas à luz da pandemia do coronavírus, o assunto está na ordem do dia: nas notícias diárias sobre as baixas registadas nos vários países e também em Portugal, nas estatísticas que vão sendo disponibilizadas e, sobretudo, na cabeça das pessoas.

É expectável que ocorram quadros de luto antecipatório. Este acontece quando alguém se encontra tão gravemente doente que a morte pode ser antecipada, em situações de doença respiratória grave em doentes em idade avançada, e/ou no quadro de outras condições clínicas potencialmente agravantes.  Antecipar a perda de um ente querido pode ser tão doloroso quanto a perda real, embora permita que a família se prepare para a despedida inevitável, procurando apoio de pessoas de referência (líderes espirituais, familiares e amigos) ou esclarecendo os desejos da pessoa no que concerne às questões do fim de vida. Pelo contrário, em situação de perda súbita (que podem também ocorrer na actual situação) o processo de elaboração do luto torna-se mais complexo: a morte inesperada gera processos de luto difíceis e pode potenciar outros problemas psicológicos (e.g., depressão). Assistiremos também a situações de luto adiado: Familiares e amigos terão que se despedir de forma rápida e dar atenção imediata a outras urgências que a situação impõe. Por fim, a tendência para o isolamento que normalmente acompanha as situações de luto confunde-se agora com o isolamento imposto, que poderá agravar os sentimentos de dor e de solidão.

No que respeita ao momento da despedida, também parte importante do processo de luto, este cumpre também uma função comunitária em que os participantes mostram apoio e solidariedade por uma circunstância que a todos tocará. Mas neste momento, quaisquer aglomerações são desaconselhadas para evitar a disseminação da COVID-19. A impossibilidade de cumprir o ritual do funeral pode complicar o processo de luto, constituindo um factor adicional de stress, raiva e angústia para os elementos da família (e.g.,  pela incapacidade de honrar os desejos do falecido ou de ter familiares e amigos significativos presentes) e limitando o apoio emocional disponível.

Assistiremos, perante a pandemia de covid-19, a situações de luto adiado: familiares e amigos terão que se despedir de forma rápida e dar atenção imediata a outras urgências que a situação impõe. E a tendência para o isolamento que normalmente acompanha as situações de luto pode confundir-se com o isolamento imposto, o que poderá agravar os sentimentos de dor e de solidão.

Logo após a primeira morte, a Direcção Geral da Saúde (DGS) divulgou um conjunto de normas sobre cuidados pós-morte por forma a evitar que os funerais das vítimas sejam focos de contaminação, como aconteceu noutros países. Estas incluem a pressão para a cremação, a, proibição de abertura do caixão em caso de enterramento, a limitação de acesso ao funeral (apenas os familiares directos) ou a ausência de cortejo fúnebre ou celebração de missa. As normas para a realização dos funerais das vítimas da COVID-19, embora tentem respeitar as práticas fúnebres, afectam de forma significativa a forma como estas cerimónias são organizadas. Esta realidade introduz um novo tipo de tristeza – individual e comunitário. A própria comunidade tem que lidar com o significado da morte decorrente de uma pandemia e com as ilações, certas ou erradas, que daí decorrem. Estas mortes confrontam a comunidade com os seus receios e incertezas, com a ideia do fim e com pensamentos globais sobre o futuro.  Adicionalmente, os sentimentos de culpa e raiva que muitas vezes acompanham a perda podem ser agravados, por exemplo, em situações em que exista suspeita de contágio ao falecido. A proibição da abertura do caixão, para lá de outros condicionalismos, é uma circunstância que pode potenciar quadros de luto patológico, que corresponde à fixação numa das fases do processo normal de luto.

Num contexto em que, previsivelmente, ocorrerá um número elevado de mortes, devem ser consideradas variáveis que podem complicar o atrasar o normal processo de luto e tomadas algumas medidas preventivas simples, no sentido de aliviar o sofrimento individual e da comunidade. Seria importante que as funerárias, observando as recomendações oficiais e atendendo em simultâneo às necessidades das famílias, facilitassem a disponibilização de condições para transmissão do funeral em vídeo (por forma a possibilitar o acesso de familiares e amigos ao momento da despedida) e sugerissem apoio na realização de um serviço memorial em casa ou numa capela, numa data posterior.

Para os enlutados e as suas famílias, seguem-se alguns conselhos fundamentais:

  • Não tente adiar o luto. Por vezes, os enlutados tentam suprimir as emoções ligadas ao luto, envolvendo-se em actividades ou tarefas na tentativa de não pensar no assunto. Aceite que o luto tem que ser vivido. Chorar é positivo: as lágrimas ajudam a expelir o stress acumulado, a “pôr tudo cá para fora”.
  • Não se isole. Procure o apoio de familiares e amigos. O luto é um processo difícil, mas precisa de ser vivido com a ajuda dos outros. Falar sobre o que sente não aumentará a tristeza, mas permitirá dividi-la com outros que também estão tristes.
  • Respeite o seu próprio tempo. Não espere que a tristeza passe de repente. O luto é um processo longo e com várias fases. Informe-se sobre elas e perceba o que se está a passar consigo.
  • Respeite as suas emoções.O luto pode incluir muitos sentimentos: raiva, revolta, culpa, medo, impotência, ansiedade e até alívio (e.g., numa situação em que a pessoa, antes de morrer, estava em sofrimento). Aceite as suas emoções, pois todas elas são legítimas numa situação de perda.
  • Procure ânimo em tarefas que lhe tragam alegria. Mantenha as suas rotinas e actividades e não abdique do que lhe dá prazer (e.g., cuidar das plantas, cozinhar, ver a sua série preferida).
  • Valorize o auto-cuidado. Quando em luto ou a apoiar alguém que está em luto, acabamos por vezes por não cuidar da nossa saúde física e emocional. Aproveitar o tempo para cuidar de si pode melhorar muito a capacidade de reagir à situação, especialmente a longo prazo.

Se considerar que o sofrimento é tão perturbador que impede as actividades quotidianas, procure a ajuda de um psicólogo. O distanciamento social não deve corresponder a distanciamento emocional. O isolamento físico não deve corresponder a um isolamento existencial. Consulte as recomendações da Ordem dos Psicólogos Portugueses para ligar com o isolamento. O luto é mais uma dimensão a reinventar no actual contexto. Lembre-se que não está sozinho.

[Originalmente publicado no P3]

o dragão-nuvem.

nuno cordeiro

 

Já viste alguma nuvem em forma de dragão?

Achas que foi por acaso?

Para os celtas, o dragão é uma criatura mitológica que dizem viver numa verdade paralela ao mundo físico. Representada como uma serpente tremenda que engole a própria cauda, é uma alegoria que sugere um movimento eterno e circular associado ao ciclo da vida. O grande ouruborus é a essência do Tempo e a matéria do Tudo, está em todas as coisas e gentes, abraça-as num gesto rasteiro e imperceptível, bafeja-as com o seu hálito quente e frio, invade-as de todas as formas: é a bruma que cobre a terra, a chuva que a penetra, a lava que ela cospe. O seu nome significa: aquele que vê claramente. O pavor espiritual que a ideia do imenso nos provoca desafia-nos a procurar o dragão que nos rodeia e nos integra. É um reflexo humano, sempre inacabado, que busca ligar o que é conforme e dar sentido ao que é inverso, olhar de dentro para fora, ordenar para entender, reduzir para esmiuçar, ver de perto para ver mais longe. Às vezes, é ao contrário. É nossa condição o mise en abyme perpétuo, um exercício de tradução do grande mistério da boca e da cauda por via da duplicação do Eu: no Outro, nas coisas, na imaginação ou no sonho. Mas a arte, a religião, a ciência ou o ócio, instrumentos ingratos desta demanda, podem tão só oferecer o feitiço da realidade fragmentada, a espaços capaz de pacificar os ansiosos ou despertar os indolentes, mas sempre ilusória e insuficiente.

A pareidolia é um exemplo desse instinto de projecção, um fenómeno psicológico comum que impele a reconhecer padrões ou imagens a partir de dados vagos ou formas aleatórias – como ver numa nuvem a forma exacta de um dragão. Se os celtas estiverem correctos, quem observa quem nesse momento? Um dragão-nuvem é um espelho invisível que devolve a mirada de olhos em brasa, admitindo a fortuna e o lixo que temos cá dentro. Porque soa como a nossa, a voz com que nos fala? Observará melhor de longe enquanto encobre o sol que nos cega, ou de muito, muito perto, transfigurado da chuva que alaga os campos e as cidades onde dormimos? Entenderá melhor os nossos vícios, dores e caprichos contemplando do alto a dimensão das nossas vidas mais ou menos longas, ou quando brincamos despreocupadamente com ele na forma de flocos de neve na ponta da língua? Traçará com maior rigor os nossos limites estudando-nos lá de cima ou quando se funde com as nossas células, antes de podermos expulsá-lo da alma numa torrente de lágrimas? Trocaremos um dia de posição com ele?

Nas entranhas do dragão, todas as coisas são possíveis e todas as coisas encontram o seu contrário: O passado e o futuro, o amor e o ódio, a guerra e a paz, a saudade e o esquecimento, o desejo e o remorso. O princípio e o fim.

Afinal, tudo – quase tudo – é uma questão de ponto de vista.

……

Folha de sala para o espectáculo “O Que Veem as Nuvens”, de Ricardo Vaz Trindade, 6-7 de Março de 2020, Cine-Teatro de Torres Vedras.

viver depois da morte.

É sabido que as reacções são mediadas pelos significados, sendo este o motivo pelo qual os mesmos acontecimentos têm impactos diversos para diferentes pessoas. Pela sua natureza universal e definitiva, a morte deveria ser um fenómeno de interpretação estável, mas sendo certo que todos morremos, nem mesmo os significados atribuídos à morte serão estáticos.

Nas últimas décadas, a incorporação da Internet e demais tecnologias em todos os domínios da vida alterou drasticamente o pensamento ocidental e, com ele, os discursos em torno da morte. Mesmo o actual debate sobre eutanásia é certamente influenciado pelo contexto histórico, religioso, social e económico, por sua vez altamente moldado pela relação com a tecnologia. Mas se a modernidade líquida impele ao individualismo e à fragilidade relacional, como explicar o paradoxo na alteração da vivência da morte e do luto? O facto é que a experiência solitária e marginalizada que caracterizou a cultura de negação da morte até ao século XX está a ser substituída por práticas colectivas, partilhadas e dessegregadas, que ocorrem em meio virtual. Paralelamente, o processo faseado e doloroso de aceitação da perda parece dar lugar à possibilidade de elaboração de uma relação reconfortante. O sistema de crenças relacionadas com a morte está a transformar-se a ritmo acelerado – em termos espaciais, temporais e sociais – dando lugar a uma nova visão da morte e da relação entre mortos e vivos.

Na era da socialização virtual, as manifestações públicas de uma dor antes privada voltam a ganhar uma importância significativa, em certos casos acompanhando as práticas tradicionais, noutros acabando por substituí-las.

Viver o luto no ciberespaço parece permitir um regresso à experiência partilhada da era pré-industrial, que foi desaparecendo com os surtos epidémicos do século XIX (que exigiam funerais frequentes e sumários) que levou, por fim, à proibição dos enterramentos nas igrejas e ao seu afastamento para os cemitérios modernos, longe das comunidades. Na era da socialização virtual, as manifestações públicas de uma dor antes privada voltam a ganhar uma importância significativa, em certos casos acompanhando as práticas tradicionais, noutros acabando por substituí-las. São muitos os exemplos que ilustram esta alteração de narrativas, desde os memoriais online (primeiras plataformas desta nova visão), os cemitérios virtuais e sobretudo as redes sociais. Estas últimas não só permitem a difusão de concepções de morte, tradições e rituais, mas aumentam a sua visibilidade e vulgarização. Facilitam ainda novas formas de luto, permitindo expressar emoções num perfil criado e pertencente ao falecido em lugar de criar uma nova representação da pessoa (por exemplo, uma campa) e reforçando a continuidade do vínculo: Este não termina, é transformado. Os estudos sugerem que estas práticas têm um efeito sobretudo positivo sobre os enlutados.

Considerando os nossos vastos registos online, é incontornável considerar também a questão do legado digital, ideia que, por si, abala a verdade inexorável que liga a morte à noção de fim. À parte da ficção distópica, é possível encontrar inúmeros exemplos de serviços de planeamento da memoração online e herança digital (por exemplo, a criação de  posts ou mensagens póstumas), para não falar da  investigação que explora as potencialidades da inteligência artificial na criação de consciências digitais a partir da pegada digital, com vista à interacção póstuma com os nossos sobreviventes. Nada disto é isento de problemas, mas questões éticas e legais à parte, é inegável que o significado cultural da morte foi já irreversivelmente alterado. E se assim é, teremos que perguntar: Morreremos mesmo?

[Originalmente publicado no P3]

a despatologização do conceito de envelhecimento.

A diversificação e omnipresença da tecnologia, bem como o envelhecimento populacional, são singularidades da nossa era: Vivemos na sociedade do envelhecimento e da cibernética, sendo incontornável reflectir nas ligações entre as duas tendências. Grande parte dos estudos sobre o uso da tecnologia pela população sénior centra-se na clivagem digital entre jovens e idosos e nos motivos pelos quais estes últimos lhe são resistentes – atitude facilmente explicada pela emergência de problemas de saúde física e psicológica (diminuição da acuidade visual e das capacidades sensoriais, abrandamento dos processos cognitivos, limitações da memória, etc.). Por outro lado, é evidente que revolução tecnológica tem globalmente conduzido a maior envolvimento e participação social. Qual o significado destes dados para a Psicogerontologia, uma das áreas emergentes mais relevantes para a nossa ciência? Como podem os psicólogos contribuir?

De acordo com a OMS, até 2020 e pela primeira vez na História, o número de pessoas com mais de 60 anos ultrapassará o número de crianças com menos de 5. Embora tal se relacione, em parte, com os espantosos avanços da Medicina, viver mais não significa viver com qualidade, já que o conceito de velhice se insere num quadro complexo, biológico, mas também social, físico, psíquico, cultural e histórico (Kachar, 2000). E se idade cronológica e biológica são muitas vezes distónicas em virtude do acesso a mais e melhores cuidados médicos, será a idade social a que melhor caracteriza as condições individuais do idoso, parecendo definir necessidades e tarefas, e até direitos e deveres. Ora a solidão, processo doloroso, subjectivo e com consequências extensas, é uma das muitas problemáticas indissociáveis do envelhecimento. As suas causas prendem-se não só com o desaparecimento de amigos e parentes, mas com a degradação natural da saúde e resultante redução da participação em actividades sociais. O isolamento social objectivo provocado por este quadro conduz amiúde a estados depressivos que, por sua vez, agravam o estado de saúde física e psicológica. É um ciclo vicioso. Desta forma, não surpreende que muitas das estratégias apontadas neste âmbito passem por intervenções centradas na manutenção das redes sociais: Entendido enquanto apreciação subjectiva com uma componente cognitiva (a satisfação com a vida) e emocional (a felicidade), o bem-estar da população sénior depende em grande parte da sua idade social – envelhecer bem, de forma activa e acompanhada deve constituir uma prioridade global.

É neste contexto que surge um número crescente de estudos que pretende investigar o impacto da utilização da tecnologia e da Internet na população sénior. De uma forma geral, estes apontam efeitos positivos na redução da solidão e diminuição da sensação de isolamento. Alguns exemplos: Chopik (2016) avaliou os benefícios da tecnologia em população sénior através de cinco comportamentos digitais (e-mail, redes sociais, vídeo, chats, SMS), bem como as atitudes em relação à usabilidade e benefícios; neste estudo, verificou não apenas uma atitude positiva em relação à tecnologia, mas também a associação entre a sua utilização frequente e uma melhor auto-avaliação da saúde, menos doenças crónicas, maior bem-estar subjectivo, menos sintomas depressivos, maior autonomia (por exemplo, na busca de informações) e menos sentimentos de solidão. Já Lipphardt et al. (2017) analisaram comportamentos digitais, motivações, interesses e barreiras numa amostra composta por seniores de cinco países europeus e verificaram que mais de metade tem acesso à Internet e interesse na sua utilização, motivado pela vontade de se manter socialmente activa e de acompanhar as gerações mais jovens. Os principais obstáculos à utilização, por seu turno, parecem relacionar-se com desafios físicos, reservas em relação ao ambiente digital e dúvidas de utilizador, embora existam diferenças claras de género que apontam para uma maior facilidade de utilização pelas mulheres e maior percepção dos benefícios pelos homens (Ramón-Jerónimo, 2013). No que respeita à memória, os dados apontam no sentido de melhorias na activação dos processos mnésicos, capacidade de raciocínio e organização das actividades quotidianas, aspecto com particular relevância para idosos com problemas de demência (Noer, 1995).

Em resumo, os ganhos da utilização da tecnologia pela população sénior parecem superar os custos e desafios, permitindo um anonimato supressor de estereótipos relacionados com a idade, um sentimento de conforto e pertença, o contacto mais frequente com amigos e entes queridos, a permutação da mobilidade física, a autonomização de acções quotidianas (pagamentos, compras online, controlo da medicação, etc.), a aprendizagem contínua e a estimulação intelectual. Mesmo do ponto de vista da sexualidade, a Internet tem permitido desconstruir mitos e estereótipos em relação a esta dimensão, oferecendo um lugar de aprendizagem, expressão, experiência e até construção de novos relacionamentos (Adams et al., 2003). Não esquecendo os efeitos negativos da utilização compulsiva da tecnologia, já largamente documentados, e as razões socioeconómicas que concorrem com as geracionais no diferencial de utilização, todos os benefícios citados têm importantes consequências no aumento da auto-estima, independência e melhoria da qualidade de vida.

Em Portugal, os seniores apresentam níveis elevados de isolamento, solidão e exclusão digital, pelo que o afastamento da tecnologia parece constituir em si uma desvantagem. Tendo em conta os desafios que o envelhecimento populacional representa e sendo o isolamento social e a solidão poderosos preditores de problemas de saúde e mortalidade em qualquer faixa etária, pode concluir-se que a inclusão digital na educação ao longo da vida, bem como em programas educacionais e ocupacionais dirigidos à terceira idade, têm uma importância que não pode ser descartada, devendo por isso ser alvo de investigação adicional por parte dos psicólogos e outros profissionais, bem como da formulação de políticas públicas que se debrucem na promoção de saúde e a melhoria da qualidade de vida destas pessoas.

 Bibliografia

Adams, M., Oye, J. and Parker, T. (2003). Sexuality of older adults and the Internet: From sex education to cybersex. Sexual and Relationship Therapy, 18(3): 405-15.

Chopik, W. J. (2016). The Benefits of Social Technology Use Among Older Adults Are Mediated by Reduced Loneliness. Cyberpsychol Behavior and Social Networking, 2016 Sep 1; 19(9): 551-556.

Lipphardt, E. Leen-Thomele, E. Coroian, P. Held (2017). Older Adults and Learning Technology: Innovations In Adults’ And Seniors’ Education. Innovation in Aging, 1-1.

Noer, M. (1995). Senior Cybernauts. Forbes, 156, 7: 240-241.

Ramón-Jerónimo, M. A., Peral-Peral, B. & Arenas-Gaitán, J. (2013). Elderly Persons and Internet Use. Social Science Computer Review, 31(4):389-403.

Publicado na PSIS21 a 21-02-2020.

uma história para fecho do ano.

Vi a trilogia inicial do Star Wars quando era garota. Revi-a dezenas de vezes nas velhinhas cassetes Beta, especialmente o primeiro filme, datado do ano em que nasci. Decorei as falas, emocionei-me com a causa da Aliança Rebelde, apaixonei-me pelo Han Solo (quem nunca?), diverti-me com o R2 e o C-3PO. Achava a Leia a miúda mais gira do mundo e também a mais corajosa. Vestia a boneca como ela, tentava até imitar-lhe o penteado. Adorava o Chewie, que me fazia chorar quando bradava de sofrimento. Fiquei tão chocada quanto o Luke quando soube (soubemos) que o Darth Vader era seu pai. Aquela música, imponente e imperiosa, foi uma das bandas-sonoras da minha infância.

Quando a saga voltou a estar na moda, 16 anos depois do último filme da trilogia inicial, resolvi ignorar o facto e não voltei ao cinema para acompanhar os feitos extraordinários do Luke, do Han e da Leia. Segui-os de longe, mas não quis vê-los envoltos em artimanhas digitais e tecnologias de ponta, convenci-me de que os novos filmes nada tinham que ver com os ‘meus’. Mas nestas férias de Natal, dei por mim a ver o último (que será mesmo o derradeiro, dizem). Ao primeiro acorde do tema, desconfirmei tudo o que pensei sobre as sequelas e mergulhei naquele universo que há muito não visitava. Foi um regresso instantâneo aos dias em que acreditava que aqueles três haviam de derrubar o Império – e para lá do seu tempo, derrubaram mesmo!

No fim, quando me precipitava para a saída, dei conta que talvez fosse a última vez que ouvia a Marcha Imperial numa sala de cinema e detive-me encostada à parede, já perto da porta. Com a sala quase vazia, reparei num miúdo, que não teria mais de 10 anos e ouvia a música dos créditos finais de pé, mãos apoiadas na cadeira da frente, muito direito, olhos muito abertos. Manteve-se assim durante os longos minutos em que os nomes dos actores, produtores, duplos, câmaras, electricistas, maquilhadores, técnicos, escultores, maquinistas, deslizaram tela abaixo ao som dos acordes majestosos de John Williams. Por fim, desceu a sala a correr, e no preciso momento em que a música acabou, estendeu a mão e tocou na tela. Virou-se para a frente, triunfante, braços no ar e dedos em ‘V’. Os pais tiraram-lhe uma fotografia. Que final tão bonito para uma aventura com a minha idade, pensei.

Penso que é uma boa história para fechar o ano.

Feliz 2020. Que a Força esteja sempre convosco.