mapa da pandemia = mapa da pobreza.

foto: José Pedro Rodrigues

A crise provocada pela COVID-19 depressa demonstrou que os efeitos serão profundos e duradouros. Colocou em evidência as fragilidades que caracterizam as sociedades contemporâneas, a debilidade dos sistemas de saúde e a fraca capacidade de resposta e de protecção social aos públicos mais afectados, antecipando o agravamento dos níveis de pobreza em todos os países, bem como das assimetrias sociais pré-existentes. Se num momento inicial repetimos incessantemente que todos estamos no mesmo barco, é hoje claro que, afinal, o vírus faz distinções de classe. Os estudos e notícias que chegam de quase todos os pontos do globo evidenciam que as taxas de disseminação são mais elevadas em contextos socioeconómicos desfavorecidos e que as consequências mais gravosas se registam em grupos minoritários e/ou socialmente estigmatizados. Mulheres, idosos, pessoas com deficiência ou doença mental, populações indígenas, refugiados, migrantes, sem-abrigo e minorias étnicas estão entre os grupos de experienciam maior marginalização social e económica. Estão mais dependentes da economia informal, ocupam territórios desprotegidos, têm acesso inadequado ou insuficiente a serviços sociais e de saúde, acesso limitado ou inexistente à tecnologia e capacidades e capacidades limitadas para lidar com as consequências da crise.

Os mais pobres estão mais expostos ao vírus, não apenas pelas múltiplas determinantes da sua condição, mas porque as próprias medidas de contenção da pandemia perpetuam as suas vulnerabilidades

Mas as diferenças entre países são abissais e denunciam a insuficiência (em alguns casos, a imprudência) das medidas de contenção globalmente recomendadas. A solução universal do teletrabalho apenas foi possível para determinados sectores, sendo claro que a propagação do vírus acompanha o mapa das desigualdades. Aqueles com menos recursos têm de continuar a trabalhar, de utilizar transportes colectivos e de contactar com outros em locais de trabalho onde o distanciamento físico é impraticável. Por outro lado, têm maior probabilidade de possuir vínculos laborais precários e são mais vulneráveis ao desemprego. O Banco Mundial estima que entre 40 e 60 milhões de pessoas possam regressar à pobreza extrema. O fecho das escolas não apenas privou crianças do acesso à educação, mas de programas de alimentação cruciais para milhares de famílias. Quanto maior o nível de pobreza, maior a probabilidade de residir em aglomerados populacionais sobrecarregados ou casas onde coabitam diversas gerações, muitas vezes sem redes de abastecimento de água ou esgotos, diminuindo a possibilidade de aplicar medidas de higiene e aumentando o risco de contágio. Problemas de saúde como a asma, diabetes e doenças cardíacas, considerados factores de risco para a COVID-19, têm também maior prevalência nestas populações.

Os mais pobres estão mais expostos ao vírus, não apenas pelas múltiplas determinantes da sua condição, mas porque as próprias medidas de contenção da pandemia perpetuam as suas vulnerabilidades. São invisíveis no plano comunicacional e imponderados nas prioridades de acção, nomeadamente no que concerne aos apoios sociais, ao reforço dos transportes colectivos e à implementação de medidas de saúde pública a eles dirigidas. Assiste-se ainda a um discurso que apenas reforça a estigmatização, denunciando-os como promotores de comportamentos irresponsáveis. Outras clivagens foram igualmente agravadas. Apesar do número de homens infectados ser superior, as mulheres representam quase 60% da economia informal, recebem piores salários e estão mais expostas ao risco de desemprego e pobreza. Representarem três quartos dos profissionais de saúde e dos profissionais de apoio social, mas são em maior número na população sénior, mais propensas a viver sozinhas e menos propensas a ter acesso à tecnologia. A pandemia trouxe ainda um aumento significativo das situações de violência contra mulheres e um aumento considerável de trabalho não pago decorrente da assistência aos filhos e das tarefas domésticas em confinamento. Neste cenário, a contenção da COVID-19 é apenas mais um desafio que concorre com a necessidade de resolução cada vez mais urgente das clivagens sociais que impulsionaram a própria crise e agora a mantêm. A investigação psicológica sobre as determinantes e impactos da pobreza evidencia que a pobreza é um dos principais motores das desigualdades que tornam os indivíduos vulneráveis ao desenvolvimento de problemas de saúde psicológica e demais consequências da crise pandémica.

A pandemia evidenciou que a saúde não é redutível a um conceito biomédico, pelo que é essencial que reconheçamos os determinantes sociais da saúde física e psicológica. Nesse sentido, a crise provocada pela COVID-19 pode ser uma oportunidade para reconhecer a multidimensionalidade do fenómeno da pobreza, reconhecendo a absoluta contradição entre as nossas extraordinárias capacidades de desenvolvimento e soluções de saúde e a aparente impossibilidade de as disponibilizar à maioria. É por isso necessário desenvolver políticas que permitam redefinir a forma como lidamos com a desigualdade e a pobreza, dando lugar a respostas que, mobilizando contributos de diversas especialidades – nomeadamente, da Psicologia –permitam responder aos efeitos da pandemia a longo prazo, revertendo o subinvestimento em saúde e protecção social, prevenindo a catástrofe climática e protegendo direitos que são de todos.

[Originalmente publicado no P3]

competências suaves, competências cruciais.

Enquanto opção académica, a Psicologia foi e continua a ser uma disciplina extremamente popular. A natureza fascinante do conhecimento psicológico atrai um grande número de estudantes, resultando numa média de 1200 novos diplomados em Psicologia por ano e preparando-os para uma ampla variedade de carreiras relacionadas com as pessoas e sua interacção. Na Academia OPP, não é raro conversarmos com estudantes que escolheram a Psicologia não porque pretendam tornar-se psicólogos, mas porque entendem – e bem – que ciência psicológica é uma formação fundamental para o desempenho de outras funções (por exemplo, uma carreira nas forças policiais ou nas forças armadas) ou poderá constituir uma mais-valia no mercado de trabalho.

Tradicionalmente, o mercado de trabalho valorizou sobretudo as competências técnicas dos candidatos – as chamadas hard skills (competências específicas e ensináveis, adquiridas via formação e experiência profissional, que podem ser definidas e medidas, e se destinam ao desenvolvimento de determinada função). Mas o mercado tem sofrido transformações profundas que exigem, para além da competência técnica, um conjunto de aptidões que permitam fazer face a desafios constantes e possibilitar a rápida adaptação a novos contextos. Por tal, actualmente não é suficiente ser tecnicamente competente; é também fundamental desenvolver competências sociais e comportamentais, naturalmente resultantes da individualidade do percurso de cada um – também deste ponto de vista, o desenvolvimento pessoal e profissional caminham lado a lado. E por isso, a maioria dos empregadores tem em conta essas competências – as chamadas soft skills – no processo de recrutamento de novos profissionais. Muitos afirmam mesmo que as competências sociais e comportamentais são mais importantes do que as técnicas.

As soft skills podem ser definidas como competências de relação e interacção baseadas na inteligência emocional que se desenvolvem ao longo da vida nos mais variadíssimos contextos, nascendo dos diferentes papéis que desempenhamos e das nossas experiências pessoais (ex., sociais, culturais, académicas). Assim, não sendo específicas de uma determinada ocupação ou profissão, o cariz transversal destas competências torna-as úteis em qualquer tipo de função e pode por isso ser decisivo num processo de recrutamento. Na maioria das vezes, para além da formação técnica exigida (por exemplo, um mestrado em determinada área que permite dotar o candidato de um determinado conjunto de hard skills), a diferenciação mais fina entre os candidatos é feita através da análise das suas soft skills.

Ora a formação em Psicologia não apenas equipa os futuros profissionais de competências técnicas. Conforme já vimos no nosso artigo “A Psicologia é uma Viagem”, a própria essência da Psicologia implica o desenvolvimento de um conjunto de competências sociais e comportamentais cujo valor é inestimável e transversal a uma grande multiplicidade de contextos. Estas competências – criatividade, proatividade, persuasão, resiliência, colaboração, pensamento crítico, iniciativa, adaptabilidade, gestão de tempo – são também úteis na obtenção de resultados positivos no trabalho, bem como no evitamento de resultados negativos.

Uma vez que não podem ser alvo de uma avaliação ou quantificação formal, a importância das soft skills no mercado de trabalho tende a ser desvalorizada pelos candidatos. Claramente, trata-se de um erro: O mercado de trabalho centrado nas soft skills traz aos Psicólogos um desafio acrescido que passa pelo desenvolvimento e valorização deste tipo de competências, mas também pela necessidade de alinhamento estratégico destas competências a um mercado cada vez mais exigente e em constante mudança. Decorrente dessa mudança, o conjunto de competências transversais que é hoje valorizado no mercado de trabalho irá alterar-se ao longo dos próximos anos. Cabe a cada um de nós, enquanto Psicólogos, ajustar o desenvolvimento das nossas soft skills às necessidades do mercado, bem como identificar novas áreas emergentes de actuação, assim como a ligação estratégica a áreas fronteiriças.

Num artigo futuro, abordaremos formas de identificar e desenvolver estas competências tão especiais – e de crucial relevância para a profissão de Psicólogo.

[originalmente publicado no blog Psicarreiras a 10.07.2020]

interesses, carreira e vocação.

No artigo anterior (“Escutar por Dentro“), concluímos com uma referência ao auto-conhecimento enquanto produto maior do desenvolvimento pessoal, um processo que se estende ao longo do ciclo de vida e que é necessariamente intencional. As vantagens do auto-conhecimento são incontáveis e têm efeitos directos em todas as dimensões da vida – por exemplo, influi na percepção e capitalização de características e interesses pessoais, no domínio do pensamento e do comportamento (processos de auto-controlo), na auto-regulação emocional, na utilização estratégica das nossas virtudes e talentos, na gestão eficaz dos nossos pontos fortes e percepção dos pontos fracos, na auto-confiança e auto-estima, no desenvolvimento da empatia, sentido de solidariedade e consciência em relação ao Outro, na percepção de oportunidades relevantes e consonantes com a nossa personalidade ou na facilitação do desenvolvimento de um foco ou rumo de acção (pessoal ou profissional).

Comecemos pela questão dos Interesses. Muitos dos estudantes de Psicologia estarão familiarizados com a Teoria dos Interesses e das Escolhas Vocacionais de Holland (também conhecida como Modelo Hexagonal de Holland), amplamente utilizado na Psicologia Vocacional. O modelo tenta explicar porque é que escolhemos determinadas profissões e quais os factores pessoais e ambientais que facilitam ou dificultam o sucesso profissional, sugerindo que procuramos contextos laborais que correspondam à nossa personalidade e vocações – permitindo assim a aplicação das nossas melhores competências e a expressão dos nossos valores.

De acordo com o modelo, os interesses vocacionais distribuem-se num hexágono em que cada ângulo corresponde a um determinado tipo de personalidade: Realista (R), Investigativo (I), Artístico (A), Social (S), Empreendedor (E) e Convencional (C). O modelo pretende explicar a relação entre os diferentes tipos de personalidades e o ambiente profissional escolhido por cada indivíduo. As semelhanças psicológicas entre os tipos de personalidade são proporcionais às distâncias entre os mesmos no hexágono: quanto menor for a distância maior é a semelhança psicológica entre eles. Por exemplo, o tipo Social e Empreendedor, que são contíguos no esquema, são semelhantes no que concerne ao contacto com pessoais, enquanto o tipo Artístico e Convencional, opostos no esquema, são radicalmente diferentes (o Artístico envolvendo uma dimensão mais criativa e o Convencional envolvendo a formalidade e a ordem).

A maioria de nós combina dois ou três dos tipos de personalidade descritos. No decurso do desenvolvimento pessoal e profissional, as preferências vocacionais vão-se transformando em interesses profissionais reais através da interacção entre estímulos ambientais e aspectos motivacionais internos. Assim, uma vez que cada tipo de personalidade apresenta uma forma de interacção interpessoal e estratégias preferidas de resolução de problemas, a escolha de um contexto de intervenção na Psicologia é necessariamente uma manifestação da personalidade. A identificação da nossa tipologia é um exercício que pode ser relevante na identificação de áreas ou contextos de intervenção que melhor correspondam aos nossos traços de personalidade, aptidões e interesses, contribuindo, em última análise, para trajectórias profissionais mais satisfatórias e bem-sucedidas.

[Originalmente publicado no blog Psicarreiras a 18.06.2020]

what did jack do? | they say real love is a banana.

            [What did Jack do?, David Lynch, E.U.A., 2017]

Num bar sombrio de uma estação de comboios, um cenário minimal composto por uma mesa, duas cadeiras e uma janela ao fundo que se assemelha a uma tela de cinema, David Lynch interroga um suspeito. O indivíduo é um pequeno macaco de olhos inocentes e lábios humanos, voz rouca e arrastada e discurso bastante evasivo. Chama-se Jack Cruz.

Durante 17 minutos, o detective sério e maquinal vestido de negro, a lembrar o agente Dale Cooper de Twin Peaks, tenta descortinar O Que Jack Fez, insinuando que ele será o responsável pelo assassinato de alguém chamado Max, envolvendo uma galinha femme fatale, Toototabom, por quem Jack está loucamente apaixonado. As perguntas do detective remetem para um passado confuso, associações a grupos de galináceos ou ao Partido Comunista ou outras acusações a que Jack se vai esquivando, evitando argumentar ou tentando mudar de assunto. O diálogo é lento e pautado por pausas dramáticas. Chega, entretanto, uma empregada vestida a rigor, que serve café e informa que um assassino anda à solta. Há momentos em que Jack quase se irrita, outros em que o diálogo parece não fazer sentido, um tiroteio fora de cena e uma apoteose em que Jack canta uma canção de amor à sua amada Toototabom. A trama policial, a neblina dos cigarros e o chiaroscuro da fotografia granulada evocam elementos do cinema noir, tão habituais no cinema de Lynch como o ambiente sinistro e onírico da cena. O género – o do cinema do absurdo.

A curta-metragem, quase integralmente orquestrada por David Lynch (homem dos sete instrumentos, além de protagonista, aqui responsável pelo argumento, realização, cenografia, design de som, mistura sonora e produção), foi criada em 2017 mas apenas viu a luz do dia a 20 de Janeiro, data do 74º aniversário do cineasta, integrando o catálogo da Netflix. É uma pequena prenda para aficionados (Lynch não filmava há alguns anos), carregada de referências autorais em que, como sempre, encontramos mais questões do que respostas. Escusado será dizer que não chegamos exactamente a saber O Que Jack Fez, mas reencontramos Lynch em estado puro.

★★★★★★★

pandemia e risco de cibervitimização.

Com a rápida propagação da COVID-19, a recomendação de isolamento físico estendeu-se a todo o globo. Fechados escolas e locais de trabalho, dependemos ainda mais das tecnologias de informação e comunicação (TIC), não só para as actividades quotidianas (e.g., teletrabalho, ensino/aprendizagem à distância), mas para efeitos recreativos e de ligação a amigos e família. É por isso natural que crianças e jovens passem mais tempo frente a computadores, tablets e smartphones, resultando numa maior interacção potencial via diversos tipos de redes.  Com muitos pais em trabalho remoto, é ainda provável que esse tempo online seja menos supervisionado. Esta permanência aumentada no espaço virtual expõe a um risco acrescido de formas diversas de cibervitimização – assédio, extorsão, cyberbullying.

As cibervítimas mais jovens são geralmente avessas à denúncia. Por receio de perder o acesso aos seus dispositivos tecnológicos, acabam por sofrer em silêncio, elevando a probabilidade de desenvolverem problemas emocionais. Os estudos mostram que a ansiedade, depressão, uso de substâncias e ideação suicida são mais elevados entre agressores e vítimas de cyberbullying do que de bullying. As circunstâncias são particularmente desafiantes para os psicólogos, num momento em que o uso das TIC se intensifica e se torna uma rotina necessária.

No Dia Nacional de Sensibilização sobre o Cyberbullying (21 de Abril), a Ordem dos Psicólogos Portugueses publicou um conjunto de recomendações para psicólogos que possam ser chamados a intervir nestas problemáticas, já que muitas vezes, os modelos tradicionais de intervenção psicológica se revelam inexactos ou insuficientes quando aplicados ao cibercomportamento. Se os atributos comuns ao

 podem ajudar a entender natureza destes fenómenos, as diferenças entre eles – essencialmente devidas ao famoso efeito de desinibição online – são particularmente elucidativas: A possibilidade de anonimato (que frequentemente torna o agressor mais hostil e a vítima mais vulnerável),  a extensão da situação (que, online, pode ocorrer em qualquer lado, a qualquer momento), a  potencial viralidade (partilha e replicação em segundos), a dimensão da audiência e ainda – dado muito interessante – a inversão dos papéis: Os estudos sugerem que a vítima de bullying tende a comportar-se como agressor em ambiente online, enquanto o bully tradicional assume o papel de vítima nesse contexto.

Estes dados, relevadores de variáveis personalísticas, antecedentes, precipitantes e condições de manutenção diferenciados em ambiente real e digital, não sendo obviamente exportáveis para outros contextos, permitem inferir a mesma lógica a outros fenómenos cibercomportamentais. De forma geral, a cibervitimização é um dos mais paradigmáticos desafios do mundo digital para a Psicologia e para os psicólogos, obrigando-os a sair da sua zona de conforto, a investigar constantemente, a expandir e modificar modelos. Em plena situação pandémica, com a massificação da prática profissional à distância e o previsível aumento global de problemas emocionais associados à utilização das TIC, a necessidade de intervir no ciberespaço é cada vez mais inescapável. Sublinhe-se, por isso, a necessidade de adaptação e actualização constantes, por forma a permitir uma verdadeira e cada vez melhor compreensão do comportamento dos indivíduos em meio digital.

Publicado na PSIS21 a 31-05-2020.

escutar por dentro.

“I took a deep breath and listened to the old brag of my heart:
I am, I am, I am.” – Sylvia Plath

Todos os anos saem das instituições de ensino superior cerca de 1200 novos diplomados em Psicologia, o que representa uma enorme conquista, mas também uma dificuldade acrescida para uma área profissional que sempre se debateu com desafios à empregabilidade – fruto da representação social dos serviços dos psicólogos como algo acessório, secundário, assistencialista. Ainda que este paradigma comece finalmente a alterar-se, num contexto de competitividade elevada e problemas cíclicos de desemprego, a ideia de que para ser bem-sucedido no mercado de trabalho é essencial possuir competências e atitudes que extravasam o conhecimento académico tem vindo a ganhar popularidade. Também por isso, o desenvolvimento pessoal emerge como facilitador do desenvolvimento profissional, na medida exacta em que este último contribui para a formação e crescimento individuais. Para os psicólogos e futuros psicólogos, a dimensão pessoal é central na esfera profissional. Não é possível abdicar de experiências de vida, valores e crenças individuais no decurso de um labor que envolve compreender o Outro. Em suma, pensar a carreira não deve começar por olhar em volta – mas por olhar para dentro. Para desenvolver a escuta activa, é necessário aprender a escuta interna. Não é tão simples quanto possa parecer.  

Os estudos sobre o desenvolvimento pessoal em estudantes apontam diversos aspectos que devem estar presentes ao longo deste processo. São eles o confronto com perspectivas diferentes das do próprio, o apoio e encorajamento, o contacto com amigos e familiares, as experiências pessoais (culturais, sociais, históricas), as relações interpessoais e alterações na forma como são estabelecidas (implicando progressivamente uma maior expressão do próprio), as competências sociais, relacionais e comunicacionais, o desenvolvimento da auto-estima, da auto-imagem, da capacidade de auto-monitorização, auto-controlo e auto-cuidado, a aceitação crescente das características pessoais, o aumento da capacidade empática, a auto-regulação emocional e afectiva, a gestão das dificuldades e desafios encontrados e estratégias de coping utilizadas, o aumento da abertura à experiência, a capacidade de gestão do tempo e de organização, a capacidade de auto-reflexão e o desenvolvimento de uma identidade pessoal e profissional – e a interligação das mesmas.

Os factores pessoais na base de um percurso de carreira incluem interesses, aptidões, competências, valores e preferências pessoais. O processo de desenvolvimento pessoal permite auto-acompanhar as experiências, progressos e realizações, reflectir sobre eles e fazer aprendizagens criteriosas acerca do que queremos fazer em função das nossas características, percursos de vida e aspirações, a fim de repetir o que funcionou bem e aprender com os erros. Em suma,  saber quem somos, para onde queremos ir, e o que fazer para lá chegar. É um processo intencional e de complexidade crescente, que envolve emoções, cognições e comportamentos, que permite perceber capacidades e aptidões, identificar forças e fraquezas e adquirir a capacidade de as descrever de forma clara. É ainda, como o desenvolvimento profissional, um processo contínuo e progressivo, composto por uma sucessão de mudanças que reflectem a interacção do indivíduo com os outros e com o seu contexto social e cultural.

Se o desenvolvimento pessoal é a coluna vertebral da aprendizagem e da realização académica e profissional, o seu produto maior é o auto-conhecimento. Pode parecer paradoxal, mas o auto-conhecimento é um exercício contínuo que exige dedicação e foco. Mas as suas vantagens são inúmeras. Falaremos delas num próximo texto.

[Originalmente publicado no blog Psicarreiras a 14.05.2020]

diálogos da psicologia | filmes para este tempo.

Pode o cinema ter um papel importante no isolamento? Pode tornar-nos mais próximos? Pode o nosso actual estado de espírito proporcionar outra leitura de filmes que já vimos dezenas de vezes? Porque não conseguimos resistir aos filmes-catástrofe em tempos de pandemia? Quais os desafios que a própria indústria do cinema enfrenta?

Uma conversa com Mário Augusto e Rui Pedro Tendinha promovida pela Ordem dos Psicólogos Portugueses.

a certeza da incerteza.

edite queiroz/ tales from the village and beyond

Em 2020, o mundo foi obrigado a mudar. Uma doença nova, com muitas incógnitas e de desfecho incerto propagou-se em semanas a todo o globo, instalando uma crise à escala planetária, para a qual ninguém estava preparado. Os países foram ditando medidas de contenção do contágio que passaram por recomendações muito específicas do ponto de vista da higiene e etiqueta respiratória, pelo encerramento de escolas, estabelecimentos comerciais e locais de trabalho e pela recomendação de isolamento físico da população. Por si só, este confinamento imposto, produziu desde logo um impacto muito significativo em todas as esferas da vida – no trabalho, na vida familiar, na vida social. A comunidade e as famílias foram obrigadas a rápidos e enormes ajustes ao seu dia-a-dia, obrigadas a cumprir medidas de segurança, a relacionar-se de outra forma, a gerir os efeitos emocionais da situação. Muitos idosos estão, há meses, totalmente isolados das famílias. Dentro das casas, a partilha continuada do mesmo espaço, obrigando a uma proximidade constante à qual muitos não estão habituados, tem sido também identificada como factor adicional de stress. Numa situação de pandemia, sendo esperado que a ansiedade, medo e frustração se intensifiquem, é também provável que os níveis de tolerância se ressintam, as dificuldades de comunicação aumentem e dinâmicas relacionais disfuncionais se agravem, potenciando vários tipos de conflitos (discussões, casamentos desfeitos ou mesmo violência).

Organizações de todo o mundo, e também em Portugal, fizeram esforços no sentido de estabelecer procedimentos de trabalho à distância para parte ou totalidade dos trabalhadores, por forma a possibilitar a manutenção dos serviços e o compromisso com a comunidade. Noutros casos, os trabalhadores foram enviados para casa em situação de layoff e outros foram mesmo despedidos, um estremecimento que naturalmente fez escalar ainda mais os níveis de ansiedade e receio em relação ao futuro. Para determinados sectores (por exemplo, o turismo ou a cultura), a situação implicou uma paragem total das suas actividades, sem previsão de retoma. Diversos são também os desafios para os que ficaram a trabalhar a partir de casa, implicando a adaptação a novas formas de organização das tarefas e à reorganização de rotinas. Para quem tem filhos ou crianças a seu cargo, as rotinas de teletrabalho exigem conciliar afazeres domésticos com o acompanhamento dos filhos nas actividades de lazer e de ensino à distância e o eventual apoio a outros familiares. Com pouco tempo para descansar ou para o auto-cuidado, estes pais ficam rapidamente exaustos e em risco de burnout.

Embora a COVID-19 seja um fenómeno global, o desconhecimento, fake news e boatos sobre a doença têm também potenciado não apenas a generalização do medo, mas a estigmatização de indivíduos de certas etnias, nacionalidades ou localidades, alimentando falsas verdades, minando a coesão social e conduzindo ao potencial isolamento de determinados grupos. O efeito do estigma social é tristemente paradoxal: a possibilidade se ser rotulados leva a que muitos ocultem que estão doentes e não procurem ajuda médica, desencorajando as medidas de distância social e agravando assim a propagação do vírus.

No mundo inteiro, muitos vão perdendo familiares e amigos para a COVID-19. Como se não bastassem as perdas súbitas (que tradicionalmente originam processos de luto mais difíceis), as normas vigentes sobre cuidados pós-morte da Direcção-Geral da Saúde (DGS), para evitar que os funerais se tornem focos de contaminação (à semelhança do que sabemos ter acontecido noutros países), indicam que no máximo 10 pessoas, em distanciamento físico, podem acompanhar os momentos finais. A impossibilidade cumprir rituais de despedida, da participação da comunidade no funeral e das manifestações de solidariedade e carinho (abraços, beijos) pode complicar o processo de luto, limitando o apoio emocional disponível e constituindo um factor adicional de stress e angústia para os enlutados. É uma realidade transforma práticas culturais de enorme importância e sugere que o luto comunitário, para além do luto individual e das famílias, é uma dimensão que não pode ser negligenciada:  Em tempo de pandemia, a própria comunidade tem que lidar com o significado da morte e com as ilações certas ou erradas que daí decorrem, confrontados mais uma vez mais os seus membros com os receios e incertezas, com preocupações com a saúde e segurança, com a ideia da morte e com pensamentos globais sobre o futuro.

Sabemos que as perdas que envolvem circunstâncias ambíguas ou resultados imprevisíveis são as mais complexas de gerir, porque nos paralisam e comprometem a acção – e a incerteza é o maior repto desta pandemia. O excesso de informação diária (alarmista, por vezes contraditória ou mesmo falsa) e as alterações que provocou nas demais rotinas conduz a sentimentos agravados de dúvida em relação a todas as dimensões da vida e obriga a um estado permanente de alerta. Não sabemos como evoluirá a propagação, quanto tempo conviveremos com uma situação de perigo iminente, se haverá uma segunda vaga, que constrangimentos, a médio e a longo prazo, toda a situação trará no futuro: perda de rendimentos ou de emprego, dificuldades ou abandono escolar, se e quando poderemos retomar planos suspensos. As reacções normativas ao stress gerado por este estado de alerta –  que podem incluir problemas de sono e de apetite, dificuldades de concentração, perda de prazer nas actividades quotidianas, tristeza profunda, tendência para isolamento ou comportamentos de risco (por exemplo, consumo excessivo de álcool, tabaco ou outras substâncias, violência interpessoal) – podem transformar-se num quadro de ansiedade verdadeiramente grave e paralisante (por exemplo, crises de ansiedade, ataques de pânico, ideação suicida). Para grupos de risco (idosos, doentes crónicos, portadores de deficiência, população institucionalizada, vulnerável e desfavorecida) ou para os que sofrem de problemas prévios de saúde psicológica, a situação será ainda mais complexa. No caso dos idosos, mais isolados e frágeis, o confinamento obrigatório pode contribuir para uma solidão ainda mais profunda, acompanhada do receio de morrer e não voltar a ver filhos e netos.

Os efeitos das mudanças impostas pela contingência de viver com a COVID-19 serão extensos, duradouros e com impacto potencial na qualidade de vida de milhões de pessoas. Mas o impacto será profundamente desigual: Criará e agravará desigualdades. Implicará muitas perdas e muitos lutos – não apenas pelas vítimas, mas pela economia, pelos empregos, pelas dinâmicas sociais perdidas, por planos gorados, por todo um modo de vida que subitamente se transformou. Os estudos indicam que, em situações de crise, os lutos são frequentemente adiados: as pessoas concentram-se em sobreviver, em responder às exigências do dia-a-dia. Mesmo perante a morte, a tristeza é como que arrastada no tempo, até que um dia se possa realizar uma missa, uma homenagem, uma verdadeira despedida. O impacto psicológico pode tardar, mas é certo que assistiremos a uma crise generalizada de saúde psicológica no pós-pandemia. E embora a reacção psicológica à crise seja variável e dependa largamente dos recursos (cognitivos, emocionais, sociais, financeiros), o facto é que ninguém está imune, quer ao vírus, quer ao risco para a saúde psicológica. Estudos globais realizados sobre o impacto psicológico de situações de quarentena sugerem, sem surpresas, que uma percentagem considerável da população poderá vir a ser psicologicamente impactada. É muito provável que as pessoas manifestem uma ampla gama de sintomas de stress psicológico, incluindo ansiedade, depressão, variações de humor, raiva, irritabilidade, exaustão emocional, perturbações de sono ou stress pós-traumático. Na China, onde estão já a ser investigados os efeitos do isolamento durante a pandemia COVID-19, as conclusões corroboram os dados de estudos noutros contextos de crise. Os principais grupos de risco para problemas de saúde psicológica a longo prazo serão os profissionais de saúde na linha de frente, crianças e jovens com menos de 30 anos, idosos e população vulnerável (população carenciada, com doença mental ou portadores de deficiência). Os riscos serão maiores em função da duração do período de isolamento, dos níveis de medo de contágio, dos níveis de frustração percepcionados, do acesso a informação clara sobre a doença e dos recursos básicos disponíveis (habitação, alimentação, acesso a cuidados básicos de saúde/medicação) – e, no pós-isolamento, em função da disrupção no orçamento das famílias e da estigmatização/ rejeição social.

Em Portugal onde os números dos chamados distúrbios de ansiedade estão entre os mais elevados da Europa (um em cada cinco portugueses tem um problema de saúde psicológica), bem como o estigma social associado a quem deles sofre, é previsível o aumento das perturbações de ansiedade, depressão ou stress pós-traumático (a venda de antidepressivos e ansiolíticos disparou logo no mês de Março, representando uma subida de 28% face ao mesmo período no ano anterior). Para os profissionais de saúde (expostos não apenas aos focos de infecção, mas a horários de trabalho estendidos, ausência de pausas, perturbação de rotinas alimentares e de sono), emergirão quadros de exaustão biológica, psicológica e social e de frustração com o trabalho que poderá traduzir-se no desgaste empático destes profissionais (diminuição gradual da compaixão), decorrente do envolvimento empático com o ‘material do trauma’ dos pacientes, diminuindo a eficácia e motivação para cuidar do outro. Num país onde quase um milhão de pessoas vive sozinha (de acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística), o impacto dos problemas de solidão na saúde física e psicológica, algo que a pandemia muito tem acentuado, não pode também ser ignorado.

Por isso, a saúde psicológica em tempo de pandemia deveria constituir uma prioridade, para indivíduos e para decisores: Dela depende a capacidade de resposta individual, a gestão adequada da situação, a percepção correcta do risco e a resiliência face aos problemas que sobreviverão à crise pandémica. Contudo, a situação em Portugal não é a mais favorável, sendo que as respostas de prevenção em saúde mental são praticamente residuais. Embora existam cerca de 20.000 psicólogos no país, o Sistema Nacional de Saúde conta apenas com 250 psicólogos ao nível dos cuidados primários e cerca de 1000 no total. É um número claramente diminuto, que impede que muitos portugueses de aceder a esses serviços, já que a maioria não possui recursos para pagar o acesso a serviços de saúde fora do SNS.

É certo que o futuro é incerto. Mas a incerteza é das únicas certezas que temos. Lidamos com ela todos os dias, nos mais pequenos gestos e dimensões – seja a saúde, a família, os amigos, o trabalho, a conjugalidade ou os filhos. Sabendo que quanto maior o tempo de isolamento, maior o risco do ponto de vista psicológico, a Ordem dos Psicólogos Portugueses cedo começou a produzir um conjunto de materiais para a população geral, com recomendações práticas sobre muitos aspectos quotidianos e para vários grupos populacionais específicos, com vista a prevenir o impacto psicológico da pandemia, a promover a adaptação e a resiliência e preparar o regresso à normalidade possível, que decerto será tão ou mais desafiante. Coisas simples podem constituir boas ferramentas para lidar com este momento, permitindo estabelecer metas mais curtas, objectivos claros e focados nos aspectos que podemos controlar, aos poucos, todos os dias. Se formos capazes de atribuir um significado a este momento de adversidade e a todos esforços individuais e da comunidade, será mais fácil lidar com a situação – e preservar a saúde psicológica. No presente, rumo ao novo normal que se avizinha.

[Originalmente publicado na Le Monde Diplomatique, edição portuguesa, edição de Maio de 2020]

webinar | a morte e o luto em contexto de pandemia.

Webinar dedicado à questão da morte e do luto durante a pandemia de COVID-19, promovido pela Ordem dos Psicólogos Portugueses, com as participações de Eduardo Carqueja (Presidente da Delegação do Norte da Ordem dos Psicólogos Portugueses), Maria de Jesus Moura (Directora da Unidade de Psicologia do IPO de Lisboa) e Alexandra Coelho (Equipa Intra-Hospitalar de Suporte em Cuidados Paliativos do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte).

a psicologia é uma viagem.

A identidade pessoal faz-se de atributos que nos diferenciam dos demais e são continuamente transformadas nas e através das relações com os outros. Nesse sentido, qualquer profissão cria modos de ser, pensar e agir, funcionando como elemento de identificação de cada um face ao Outro – no nosso caso, Ser Psicólogo. Se as vivências e características individuais são centrais na construção da identidade pessoal, a auto-imagem profissional será também basilar na definição dos valores, motivações e experiências. As bases da Identidade do Psicólogo assentam, portanto, na especificidade dos seus conhecimentos e práticas, mas também no seu percurso académico, história pessoal e significado atribuído às suas experiências – pessoais e profissionais.

É um processo idiossincrático, já que todos os Psicólogos são diferentes. Mas todos praticam uma ciência de natureza complexa, que funciona em relação e tem por matéria o ser humano, as suas crenças, valores, emoções e demais elementos da subjectividade humana. É este, por excelência, o objecto da Psicologia. A necessidade de aceitação do que é diverso implica desenvolver competências para lidar com diferentes indivíduos e grupos, bem como de reflexão e pensamento crítico, por forma a actuar com integridade e justiça, salvaguardar crenças pessoais e prevenir a sua interferência na prática profissional. Implica ainda manter o olhar no horizonte: Ser permeável ao momento histórico, estar atento a novas necessidades da própria profissão, responder-lhes com disponibilidade curiosa – por exemplo, sem dúvida que a actual pandemia de COVID-19 é determinante para a Psicologia: Representa um enorme desafio para a intervenção dos Psicólogos e exige de cada um a disponibilidade para sair da sua zona de conforto, transformando, ampliando ou adaptando a sua forma de intervenção.

É por isso indiscutível que a identidade do Psicólogo emerge não apenas da sua formação e prática, mas dos seus traços e atributos. A capacidade de reflexão e análise, a abertura à diversidade e à diferença e a relação empática com o Outro são características que diferenciam os Psicólogos dos profissionais de outras áreas. Ora estas competências não se aprendem no ensino superior: São fruto do auto-conhecimento que decorre de um processo contínuo de desenvolvimento pessoal. Este denominador comum a todos os Psicólogos, independentemente da área de intervenção ou do público-alvo, confunde-se com o propósito do seu trabalho, no sentido em que o objectivo último da Psicologia não é outro senão o de promover o auto-conhecimento, a capacidade de adaptação e a mudança cognitiva e comportamental.

O momento da escolha do curso é muitas vezes marcado por demasiadas certezas e por uma certa idealização da Psicologia. Ao longo do curso, surge o conflito entre o querer ser e o saber fazer; inicia-se um processo de construção de significado para a profissão e de elaboração de uma identidade que aproxima o Eu da profissão escolhida. Por fim, na transição para o contexto real de trabalho – o Ano Profissional Júnior – emergem dúvidas e inseguranças na direcção a tomar. A necessidade de adquirir ferramentas e suplementar a formação constituem um novo patamar na construção da identidade do futuro Psicólogo. É natural que seja um momento árduo, mas também de novas aprendizagens, descobertas e reatribuição de significados ao saber adquirido, que confluem nessa aproximação permanente entre o Eu pessoal e profissional e a prática da profissão: a elaboração de possibilidades de actuação, o acesso aos referenciais da profissão por via do livre-arbítrio, a apropriação de conceitos e práticas, a escolha de um caminho necessariamente dialéctico e transformador.

A Psicologia é uma viagem para a qual levamos uma bagagem incompleta, que vai sendo incrementada e transformada com a formação académica e profissional, com a experiência de trabalho e com a experiência de vida. A identidade profissional e os produtos do processo de auto-conhecimento são armas poderosas e complementares, que nos colocam, a todo o momento, numa melhor posição para a conquista do saber fazer, enquanto domínio das condições para o exercício e para a definição de um percurso de carreira.

[Originalmente publicado no blog Psicarreiras a 09.04.2020]