THE WHITE CROW | we have to aim higher.

[The White Crow, Ralph Fiennes, Reino Unido/ França/ Sérvia, 2018]

Белая Ворона (Corvo Branco/ Belaya Vorona)
Expressão utilizada para descrever um indivíduo invulgar,
extraordinário, 
diferente dos outros, um outsider.

Rudolf Nureyev (1938-1993) foi um dos mais celebrados bailarinos do século XX, responsável por uma verdadeira revolução nos papéis masculinos tradicionais no ballet clássico. A sua vida tem sido objecto de documentários diversos, pelo que tardava o biopic que agora nos chega pela mão de Ralph Fiennes. Nele, podem reconhecer-se características de Nureyev que permaneceram no imaginário colectivo: o bailarino invulgar, electrizante, avesso a regras. O deslumbramento pela figura de Nureyev não se prendia com a sua técnica impecável (ao contrário de Vaslav Nijinski, seu mais aclamado antecessor), mas com o seu magnetismo em palco (é-lhe atribuída a frase célebre: “A técnica é um óptimo recurso quando não se tem inspiração”). Depois dele, não mais os bailarinos se limitariam a papéis de suporte – na época, a bailarina era sempre a estrela maior – passando a brilhar por direito próprio.

Terceira realização de Fiennes, com argumento de David Hare (As Horas e O Leitor) a partir da biografia Rudolf Nureyev: A Life“, de Julie KavanaghThe White Crow (O Corvo Branco) recorda a primeira digressão de Nureyev a Paris com o Ballet Kirov (hoje Ballet Mariinsky) em 1961. Se a viagem teria por objectivo político a afirmação da supremacia soviética na dança e noutras áreas da cultura, os de Nureyev seriam outros. Ambicioso e fascinado pelo ocidente e pelas possibilidades que oferecia de visibilidade (faz imediatamente amizade com vários bailarinos e intelectuais franceses, perde-se na vida nocturna, nos concertos e nos museus), aproveita a situação para pedir asilo político, com a ajuda da amiga Clara Saint (Adèle Exarchopoulos), evitando assim o regresso à União Soviética. Encarada como uma dissidência, a opção de Nureyev teve enorme impacto internacional e é hoje um corolário da biografia do “bailarino desertor” que abandonou o seu país para triunfar no ocidente.

Depois de Nureyev, não mais os bailarinos se limitariam a papéis de suporte – na época, a bailarina era sempre a estrela maior – passando a brilhar por direito próprio.

Com várias analepses, o filme dá ainda conta do seu nascimento durante uma travessia transiberiana, da infância de pobreza na pequena cidade soviética de Ufa e dos primeiros anos de treino em Leninegrado sob mentoria de Alexander Pushkin (Ralph Fiennes), bailarino e professor que mais tarde treinou Mikhail Baryshnikov. Na época, apesar do seu carácter rude e desagradável (o filme retrata-o até com benevolência tendo em conta a biografia acima referida), apaixona-se por Teja Kremke, bailarino alemão que teria sobre ele um enorme ascendente pessoal e artístico, ao mesmo tempo que se envolve com Xenia (Chulpan Khamatova), mulher de Pushkin, responsável por uma espécie de aurora sexual inadvertida (de resto, Nureyev nunca escondeu a sua orientação sexual).

A estrutura do filme é algo problemática, já que os constantes flashbacks nem sempre são imediatamente identificáveis e acabam por gerar confusão (o filme em nada perderia se os acontecimentos fossem apresentados de forma cronológica). Já o retrato sociopolítico é claramente ocidental, uma lente incapaz de evitar uma mão-cheia de trivialidades sobre a União Soviética e a Guerra Fria (a própria fotografia do filme produz um enorme contraste entre Paris e a então Leninegrado), embora não relativize a opção de Nureyev e os seus verdadeiros intuitos, que não teriam sido políticos, mas pessoais. Por outro lado, The White Crow beneficia de algumas (poucas) belas cenas de dança pelo bailarino ucraniano Oleg Ivenko, que tem aqui a sua primeira experiência como actor. No entanto, ele não possui o mesmo engenho na representação: A composição da personagem é demasiado mecânica e sem fluidez, fazendo com que as características menos positivas de Nureyev (a ambição extrema, a arrogância, a vaidade, o egocentrismo) emerjam de forma algo repentina e pouco convincente.

Não se trata, portanto, de uma biografia completa. The White Crow debruça-se na juventude de Nureyev e exclui todo o posterior trajecto, o estrelato internacional, as relações amorosas com outros bailarinos (Erik Bruhn, Robert Tracy) e o seu falecimento, vitimado pela SIDA, com apenas 54 anos. Mas apesar das limitações, o filme contextualiza os primórdios do percurso de uma figura de talento singular sem abdicar dos aspectos mais salientes da sua personalidade, e aguça a curiosidade sobre os diversos factos da vida do lendário par de Margot Fonteyn que aqui não são abordados. Com pena, falta-lhe o fundamental. Falta-lhe fogo e dança, e nada caracterizaria melhor a figura em análise.

★★★★★

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VARIAÇÕES | quero é viver.


[Variações, João Maia, Portugal, 2019]

Um dos filmes mais aguardados do ano, Variações é já um recordista de bilheteiras. Já o era antes de o ser. Poucas figuras da música portuguesa serão tão queridas do público ou despertarão tanta saudade. Depois 35 anos sem António Joaquim Rodrigues Ribeiro, quem não gostaria de rever o cantor, o barbeiro, ícone da Lisboa do final dos anos 70?

Desenvolvido ao longo de quase duas décadas, Variações fala de António com uma atenção quase exclusiva na sua figura e personalidade, apresentando-o de forma tão calorosa que quase questionamos se, de facto, poderia existir um homem assim: simples apesar de toda a excentricidade, sonhador obstinado, autodidacta incansável, amigo leal. O amor à música, esse, todos lhe reconhecemos, está plasmado nos resultados da sua curta carreira (dois álbuns apenas), subitamente interrompida pela sua morte em 1984. É quase possível matar a saudade olhando para Sérgio Praia, que para além das semelhanças físicas, nos oferece uma interpretação de corpo e alma: A atitude, o olhar, a fisicalidade, os trejeitos vocais, os movimentos característicos, a energia e o entusiasmo de cantar – e, claro, a Amália na voz. A transformação de Sérgio Praia é quase perfeita e inesquecível.

Mas nem apenas de António se faz Variações. A caracterização, as indumentárias, a mise-en-scène fazem-nos viajar no tempo de forma imediata e sentimo-nos com ele, nessa Lisboa já tão distante: na casa excentricamente decorada onde vivia, compunha e poucos entraram, nas ruas da cidade por onde andava sempre a pé, no seu barbeiro, no frenesim da discoteca Trumps onde actuou ao vivo pela primeira vez.

Naturalmente, há falhas. O material é imenso e diverso, há vontade de mostrar tudo e não deixar escapar nenhum detalhe. Mas falta profundidade à secção dedicada à experiência internacional e seus frutos. Falta um pouco de contexto, que permitisse perceber que a extravagância da figura de Variações talvez não fosse tão consensual como o filme parece, carinhosamente, indicar (sabemos que não o era). Faltam referências importantes a quem apoiou a sua luta pelo reconhecimento. Falta o foco em momentos dramáticos que sabemos que existiram. Falta algum rigor na caracterização das origens humildes em Fiscal e dos costumes da aldeia. Mas António Variações não caberia num filme. E por isso, onde tudo isto falta, sobra reverência e respeito: a relação com a mãe (mais complexa do que a retratada), a questão sexual, a relação com Fernando Ataíde (Filipe Duarte), a família “disfuncional” que formavam com Rosa Maria (Victória Guerra, lindíssima), a maleita que o terá vitimado, tudo é tratado com delicadeza e sem cair na tentação fácil de instrumentalizar os detalhes menos felizes.  As canções, já eternas, são revisitadas nos arranjos de Armando Teixeira (dos Balla) e voz de Sérgio Praia, levando-nos num passeio pelo percurso do cantor, mais do que isso, pela pessoa – como algures no filme é dito, a música de Variações diz bem mais de António do que ele próprio. E por isso ele vive ainda, num imaginário musical que já não morre.

“E quem é que te disse que quero adaptar-me a Lisboa?
Lisboa é que tem que se adaptar a mim”

Em suma, o filme de João Maia pode não ser (e não é) uma biografia rigorosa. Exagera nas plasticidades, é omisso em questões importantes e em vários momentos desacertado. Mas dividamos objecto fílmico nas suas tantas componentes: na sua nota de intenções, não pretende ser imparcial, mas invocativo; do ponto de vista da interpretação, é não menos que fulgurante; o design de produção e guarda-roupa são belíssimos; o som e a fotografia são bons; o argumento é inteligente e ponderado, escolhendo não ser explícito quando o poderia ser e nada manipulativo tendo material de sobra para apelar à lágrima. Por fim, o filme vence-nos nos afectos, esse ingrediente sempre basilar, mas de difícil avaliação. É um filme para uma personagem, para um actor (o incrível Sérgio Praia) e para uma memória colectiva – sobretudo individual. Nele, cada um pode ler o que gostaria de ver e saber, e dois ou três passos para lá da nostalgia da persona, imagina, identifica, projecta e reconhece: é este o António – frenético, incompreendido e difuso – nosso e de cada um.

★★★★★★★★

HER SMELL | i always flirt with death.

               [Her Smell, Alex Ross Perry, 2019, EUA]

Elisabeth Moss parece ser a actriz do momento. Nenhuma figura feminina conseguiu, nos últimos anos, produzir a mesma sensação que a intérprete da badalada série da Hulu The Handmaid’s Tale, agora na terceira temporada, que apesar de ter vindo a distanciar-se da narrativa proposta por Margaret Atwood no romance homónimo continua cativante e a provocar um sentimento de identificação um pouco inquietante. Her Smell chega envolto nesse hype em torno da protagonista, conduzindo-nos à sala de cinema quase exclusivamente pelo cartaz – inundado pelo olhar azul de Elisabeth Moss no papel de uma diva punk rendida aos seus piores impulsos, num revivalismo evidente do showbiz embriagado dos anos 90.

Convém relembrar que o fenómeno Elisabeth Moss não nasceu com este filme, nem com a sobejamente conhecida Mad Men, nem com a série acima citada, nem sequer com o projecto de Jane Campion que, embora excelente, nos passou relativamente despercebido e que dá pelo nome de Top of The Lake, da BBC. A sua capacidade interpretativa tem-se firmado de forma discreta ao longo de todos os seus projectos, maioritariamente televisivos, impondo-a como actriz capital da sua geração. Neste Her Smell, dirigido pelo jovem Alex Ross Perry (que também produz e assina o argumento), Moss interpreta Becky Something, personagem escondida por detrás de um pseudónimo que anuncia a trajectória clássica de ascensão e declínio de uma estrela (supostamente inspirada na figura de Courtney Love), ao estilo das tragédias icónicas de Jim Morrison ou Kurt Cobain. Mas há algo diferente em Becky – desde logo, o facto de se tratar de uma mulher, que é também mãe, e a estranheza provocada pelo facto da atracção pelo abismo não produzir nela o efeito suposto numa qualquer fêmea com as suas respectivas responsabilidades. Desde os primórdios da formação da banda em questão, os Something She, vamos assistindo aos sucessos e pouco depois dissabores da banda perante os impulsos da sua líder espiritual e vocalista, errante e decadente, alheia à condição feminina e ao impacto do seu comportamento nos mais próximos, no par romântico indignado e na sua descendência frágil.

Não poderá dizer-se que estejamos perante um produto novo, sendo muitos os objectos cinematográficos que abordaram, de uma forma biográfica ou ficcionada, os bastidores da fama ou os devaneios, metamorfoses e quedas de vultos da pop e do rock – este é só um exemplo, que transpõe para o feminino um percurso de auto-destruição semelhante ao que assistimos em The Doors (de Oliver Stone, sobre Jim Morrison e os Doors), Control (de Anton Corbijn, sobre Ian Curtis e os Joy Division), Walk the Line (James Mangold, sobre Johnny Cash) ou mesmo Bohemian Rhapsody (de Bryan Singer, sobre Freddy Mercury e os Queen). Mas nesse sentido, o filme oferece uma análise inversa de uma personagem clássica – a estrela em decadência – transferindo-a do masculino para o feminino e assinalando as particularidades necessariamente arrastadas por esse deslocamento, nomeadamente as obrigações da anti-heroína enquanto mulher, companheira e mãe. Trata-se por isso de uma composição tingida de constrangimentos de género, que propõe um quadro bem diferente do que estamos habituados em filmes desta natureza.

Tendo em conta que Elisabeth Moss é o nome à cabeça do elenco, podemos contar com estudo de personagem (que nunca verdadeiramente se aprofunda, mas não deixa de ser interessante enquanto proposta) e sobretudo com um show de representação (e de transformação física e psicológica), ao mesmo tempo vulnerável, descompensado e arrebatador, que não apenas salva o filme da banalidade temática, mas o eleva, até certo ponto, a um exercício de estilo de representação que não pode ser ignorado – uma rapariga que interpreta um rapaz que na realidade é uma rapariga. Em plena silly seasonHer Smell é o espírito (feminino) de um certo tempo, e talvez o único título que vale a pena visitar nas salas de cinema.

★★★★★★

DEMOCARIA EM VERTIGEM | eu tinha 19 anos quando o Lula foi eleito. lembro-me da euforia.

[Democracia em Vertigem, Petra Costa, Brasil, 2019]

Quem viu a primeira longa-metragem da cineasta e argumentista brasileira Petra Costa, um documentário de 2012 sobre a vida, morte e legado de Elena, a irmã mais velha que se suicidou aos 22 anos, ficou certamente impressionado. Desde logo, por tratar um tema difícil (o suicídio), mas sobretudo pelo tributo, pelo olhar poético, pela competência do trabalho de montagem e pela narração na primeira pessoa num tom suave e melancólico, que se tornaria numa assinatura. Mais tarde chegou-nos Olmo e a Gaivota (2015), realizado em parceria com a cineasta dinamarquesa Lea Glob, uma docuficção sobre uma actriz que espera o primeiro filho que aborda, com a mesma tonalidade melancólica, mais um tema difícil: a desromantização do estado de graça.

Em Democracia em Vertigem, documentário recém-estreado na Netflix, Petra Costa analisa os meandros da crise política brasileira dos últimos anos, colocando o foco narrativo na figura de Lula da Silva: Esta é a história da sua surpreendente ascensão e queda, da forma como o metalúrgico sindicalista que se tornaria dirigente do Partido dos Trabalhadores (PT) deixou de ser um dos líderes mais populares do mundo para ser um preso político em pouco mais de uma década, e das feridas profundas que estes acontecimentos causaram na sociedade brasileira, abrindo caminho ao retrocesso social e político. Para contar a história, o filme percorre os bastidores políticos, o escândalo da Petrobras e as acusações de corrupção, a operação Lava Jato, o processo de impeachmentde Dilma e finalmente a eleição de Bolsonaro.

No início do filme, Petra releva a posição política da família – ela é neta de empresários da construção e filha de militantes de esquerda (o seu nome, Petra, homenageia Pedro Pomar, fundador do Partido Comunista do Brasil assassinado durante a ditadura) – e utiliza o paradoxo familiar para instituir uma imparcialidade que, naturalmente, apenas pode ambicionar. Diz-nos: “Eu concordo com a linha da antropologia de que não tem como ser objectivo. Isso é colonialista. Para escapar do recurso da objectividade, é preciso expor que o que você está fazendo é a interpretação dos factos.” (1).

“Eu e a democracia brasileira temos quase a mesma idade. Eu achava que nos nossos 30 e poucos anos, estaríamos pisando em terra firme. Eu tinha 19 anos quando o Lula foi eleito. Lembro-me da euforia.”

A arquitectura narrativa parte assim da sua história pessoal e mistura-se com ela: É evidente o fascínio pela figura de Lula desde o primeiro voto (aos 19 anos), a antipatia por Sérgio Moro, a proximidade com Dilma (ela e a mãe de Petra frequentaram a mesma escola e estiveram presas no mesmo cárcere). O filme beneficia não apenas dessa proximidade a algumas das figuras centrais, mas também do acesso a uma quantidade considerável de material de arquivo. Há registos belíssimos de planos aéreos de Brasília, de manifestações e tumultos, das sessões no Congresso Nacional, filmagens do Palácio da Alvorada simbolicamente imenso e vazio, diálogos entre Lula e Dilma e gravações telefónicas, misturados com entrevistas a anónimo e aos protagonistas (alguns recusaram, como Aécio Neves) e vídeos caseiros da sua infância e adolescência. O que o torna verdadeiramente apelativo é o trabalho de organização e montagem de todo este material e, uma vez mais, a narração pausada e melancólica, na voz de Petra. Pode dizer-se que Democracia em Vertigem é um conto sobre um sonho desfeito – o sonho da democracia – que era o dela, o de Lula e o do povo brasileiro.

Alguns dirão que se trata de uma visão fragmentária ou subjectiva – necessariamente assim será, este não pretende ser um trabalho jornalístico que reponha uma ‘verdade histórica’. Mas o olhar de Petra Costa está longe de ser acrítico: o seu posicionamento vai-se estruturando, talvez não tanto de um ponto de vista político (onde poderia ser bem mais claro), mas certamente afectivo. Desenvolvendo-se no sentido da exposição de um golpe orquestrado pelas elites em nome de interesses económicos e políticos, há espaço para algumas observações amargas em relação ao PT (ou, pelo menos, em relação aos vícios da política que ela identifica como inevitáveis) e um esforço sincero em mostrar ambos os lados da questão recorrendo à informação e factos disponíveis. Mais do que uma posição política, o resultado final é um fresco de uma sociedade profundamente fracturada e um sentimento, pungente, de desencantamento. Por isto, Democracia em Vertigem é filme raro. Petra Costa não pretende oferecer mais que uma impressão pessoal, tão poética e intimista como as anteriores, desta vez sobre um período histórico turbulento no qual cresceu e se fez adulta. A visão segmentada da narradora é largamente compensada pela honestidade do seu relato – e isto, por si, é uma forma de resistência.

★★★★★★★★

……………..

(1) Correio Braziliense, 30-06-2019

SEX EDUCATION | love isn’t about grand gestures. it’s just dumb luck.

[Sex Education, Laurie Nunn, Reino Unido, 2019-...]

É sabido que o humor é a melhor forma de falar a sério. E que falar a sério de sexo não é ainda um passeio no parque. Juntando estas duas premissas, a australiana Laurie Nunn criou para a Netflix a série Sex Education, que como o nome indica, versa sobre educação sexual. A peça central da narrativa é Otis (Asa Butterfield), um rapaz de 16 anos tímido e inexperiente cujo convívio diário com a mãe Jean (Gillian Anderson), uma terapeuta sexual muito descomplexada, o equipa de um saber inadvertido sobre a sexualidade muito superior ao dos garotos da sua idade. A enigmática Maeve (Emma Mackey), colega de escola, apercebe-se deste talento e propõe-lhe que criem uma espécie de consultório sexual para os alunos de Moordale High, repartindo os lucros: ela trata da logística, ele da terapia.

A jovialidade do enredo poderia cair com facilidade em lugares comuns e piadas demasiado óbvias, mas guarda várias surpresas. A primeira é o seu anacronismo: há telemóveis, computadores e Internet, mas toda a envolvente remete para os anos 90 – o guarda-roupa, a arquitectura, a decoração de interiores ou as referências musicais (a banda-sonora, que inclui Billy Idol, The Cure ou Violent Femmes, pode ser ouvida aqui). É uma viagem no tempo embalada pelo sotaque britânico dos actores, que contrasta com o ambiente liceal e personagens-tipo popularizadas pelo cinema americano: O miúdo brilhante à margem do seu contexto (Otis), a rebelde solitária de cabelo cor-de-rosa e meias de rede (Maeve), o rufia que se diverte a intimidar os colegas (Adam/ Connor Swindells), o gay sempre bem-disposto, melhor amigo de Otis e eixo cómico da narrativa (Eric/ Ncuti Gatwa), o grupo das miúdas fúteis e populares, o director insuportável.

Não fossem as questões do sexo transversais a idades e lugares, a ambiência vintage e geograficamente indistinta cria uma aura atemporal que cativa pela estranheza e afasta a série de produtos como Beverly Hills, 90210 (demasiado datado), Kids (demasiado negro) ou American Pie (demasiado parvo). O elenco é escolhido a dedo: Gillian Anderson numa das suas melhores composições (não há dúvida que o tempo favoreceu o talento e a  figura da eterna Scully de X Files), Asa Butterfield num papel que parece ter sido escrito à sua imagem e um leque de secundários que vale a pena ver crescer: Emma Mackey, Connor Swindells e, em especial, Ncuti Gatwa (merecia uma série só para ele), vão ocupando as suas personagens aparentemente estereotipadas e dando conta das suas várias camadas.

Ao longo dos oito episódios da primeira temporada, a série vai deslizando do chiché para as problemáticas profundas que os problemas sexuais tantas vezes mascaram: a insegurança com o corpo, a ansiedade relacional, a baixa auto-estima, a orientação sexual, o pânico da rejeição ou do romance, a decepção com o Outro ou com experiências vividas, a comunicação entre pais e filhos. Pelo meio, desmitificam-se temas como a virgindade, a masturbação, a descoberta do prazer, o aborto, as drogas, a medicação ou a homossexualidade, por meio de uma abordagem que pondera descontracção e cuidado e tendo como pano de fundo um humor subtil, inglês, que assegura a leveza das discussões difíceis e o alívio dos momentos mais dramáticos. Na descoberta das suas vulnerabilidades, as personagens vão-se revelando (ficamos a conhecer outra Maeve, outro Adam, outro Eric e uma mãe que não é assim tão liberal) e a narrativa adolescente torna-se adulta, seja porque não temos ainda todas as respostas, seja porque um antigo Eu se rende à nostalgia das meias de rede e Dr Martens enlameadas. Sex Education é talvez a série juvenil mais madura de que há memória. E tem ainda alguns conselhos para oferecer.

SOU AUTOR DO MEU NOME MIA COUTO | sou um transmissor de recados.

[Sou Autor do Meu Nome Mia Couto, Solveig Nordlund, Portugal, 2019]

O cinema de Solveig Nordlund, realizadora sueca naturalizada em Portugal, tem mantido uma relação estreita com a literatura e seus autores. São exemplo disso os filmes sobre a vida e obra de António Lobo Antunes (o documentário Escrever, Escrever, Viver e mais tarde o filme A Morte de Carlos Gardel, baseado no livro homónimo), Marguerite Duras (o documentário biográfico com o seu nome), Richard Zimmler (O Espelho Lento) ou J.G. Ballard (J.G. Ballard: The Future Is Now e Aparelho Voador a Baixa Altitude). Surge agora mais um trabalho centrado numa figura literária. Narrado na primeira pessoa, Sou Autor do Meu Nome Mia Couto é um relato em que o autor nos apresenta o lugar das suas memórias – a cidade da Beira, em Moçambique – e nos conduz pelos caminhos da vida que acabaram por guiá-lo à literatura.

Com ligações ao Partido Comunista, o pai Fernando Couto parte para a Beira no início da década de 50 para escapar à perseguição e seguir a carreira de jornalista, editor e poeta, mandando buscar a mãe um pouco mais tarde, como era costume na época. Os três irmãos nascem já em Moçambique, terra a que chamaram casa. Apaixonado por gatos, Mia cedo escolhe o seu próprio nome, em homenagem aos muitos bichanos que passeavam na rua em frente à grande varanda da casa – uma janela para o mundo, “era a Internet da altura”. Pela janela contemplavam o duro retrato do colonialismo, da segregação, da guerra ali ao lado, do racismo. Em 1971, chegou a mudança para Lourenço Marques e os primeiros estudos em Medicina. O movimento estudantil era robusto, com ligações à Frelimo, causa que determina o abandono da faculdade e início da actividade como jornalista, que manteve após o 25 de Abril. As recordações de Moçambique cruzam a guerra colonial, a independência, o longo período de guerra civil, as dificuldades e a fome, o trabalho como jornalista, a militância na Frelimo, a paixão pela biologia e a chegada ao lugar da escrita.

Sou Autor do Meu Nome… mostra-nos um homem simples, que continua a recusar o estrelato e se passeia pelas ruas da Beira com a descontracção de quem pertence àquela terra, sem conseguir passar incólume às vicissitudes da sua fama internacional. Seguido pela câmara, é muitas vezes interpelado por gentes de todas as idades que o abordam para o abraçar, roubar selfies, e sobretudo contar histórias. Porque as pessoas pensam através de histórias, aqui “é quase impossível não ser escritor”. São histórias do fantástico, do mistério, de mortos que comandam os vivos, da natureza mutante. Histórias de gente que lhe pede que devolva em texto a polifonia das vidas, que fala ainda em muitas línguas e para quem a relação com as palavras é peculiar, fruto de uma condição histórica que as torna diversas, desviantes, adaptáveis. Com frequência, chegam-lhe palavras que não existem no dicionário embora lá façam falta. Por exemplo: improvisório – qualquer coisa provisória mas também improvisada.

Muitas serão as teses académicas que abordam a obra literária de Mia Couto (moçambicana? pós-colonialista?), será porventura uma das muitas situações em que correm os teóricos no encalço dos práticos, tentando explicar por meio de fórmulas criadas a essência do trabalho de um artista. Nenhuma delas poderá, porventura, explicar a escrita de Mia Couto com a transparência e simplicidade do auto-relato. O documentário de Nordlund, em estreia mundial no IndieLisboa 2019, é uma oportunidade para conhecer o universo pessoal e literário de Mia Couto através de um olhar guiado pelas cores quentes de Moçambique e do sotaque particular do protagonista, que observa a forma como a oralidade lhe invadiu a escrita e inflectiu as regras da gramática. Não há outra forma de contar as histórias das pessoas, e é essa, diz-nos ele, a grande tarefa de quem escreve. “Sou um transmissor de recados”. A incumbência de mero mensageiro atraca-o a um propósito humilde, que diz ser a razão da sua escrita: “a missão e o dever de contar aqueles que vivem na invisibilidade, tornar visível esses lados do mundo. O que as pessoas querem de um escritor não é que ele seja um ídolo, é que ele as traduza.”

AFTER LIFE | a good day is when I don’t go around wanting to shoot random strangers in the face, and then turn the gun on myself.

[After Life, Ricky Gervais, Reino Unido, 2019-...]

No início da série de seis episódios escrita, protagonizada e realizada por Ricky Gervais para a Netflix, vemos um vídeo da esposa de Tony, filmado pouco antes da sua morte, no qual ela lhe deixa instruções básicas para o dia-a-dia. Recorda-lhe que ele é um homem bom, que alimente o cão, que lave a loiça, que se esforce por ser feliz. Mas Tony perdeu a alegria de viver e vê-se incapaz de reencontrar entusiasmo no trabalho, nos amigos ou nas visitas ao pai idoso. Depois de contemplar o suicídio (do qual desiste por causa do cão), decide sobreviver à dor fazendo e dizendo o que lhe apetece, sem regras ou filtros, punindo os que o rodeiam com a sua revolta (às vezes indiferença) e uma espécie de honestidade bruta, agora vivida como um superpoder.

Em After Life, a simplicidade do argumento e a excelência dos actores são dispositivos usados de forma discreta, para melhor sondar temas familiares ao humor de Ricky Gervais: a velhice, a doença, a morte, o luto, o excesso de peso, o desencanto com a rotina diária. Em torno do anti-herói gravitam o cunhado bem-intencionado (Tom Basden) que é também seu chefe num pequeno jornal local, o colega gorducho (Tony Way), a colega chata (Diane Morgan) a nova repórter (Mandeep Dhillon), o pai demente (David Bradley), a enfermeira deste último (Ashley Jensen), um sem-abrigo a quem pagam para distribuir o pasquim (Tim Plester), uma prostituta simpática que ele converte em empregada doméstica (Roisin Conaty). Todos parecem empenhados em ajudá-lo, apesar de vítimas do seu pessimismo, observações cáusticas e ameaças de suicídio.

Embora os seis episódios exibam sobretudo o exercício da tal honestidade bruta de Tony sobre os amigos, colegas e família, contam num ritmo lento a história de um luto vulgar, agridoce, humano – é o seu grande arco dramático. A narrativa ilustra com precisão os detalhes de uma situação complexa (os problemas de sono e alimentação, a apatia, a perda do prazer no convívio, a tristeza profunda, a tendência para excessos), intercalando-os com histórias caricatas que Tony documenta nas suas reportagens, reflexões existenciais amargas e muito sarcasmo.

Existe, no entanto, uma dualidade na personalidade de Tony, já que o seu comportamento é inverso ao que nos é dado a perceber pelos relatos da esposa nos vídeos que lhe deixa. Essa dissonância – o homem bom que se transforma num idiota – é utilizada para evidenciar o vazio existencial da personagem, explicar a perplexidade dos amigos e guiar uma jornada de recuperação de um certo prazer de viver, mas também para testar os limites do humor ou a diferença entre ser honesto e ser cruel ou ofensivo (aspectos discutidos pelo humorista no stand-up Humanity, também disponível na Netflix). A personagem exibe ainda as contradições clássicas da depressão no luto, reflecte a importância das memórias e da partilha de experiências (brilhante, o encontro com a personagem de Penelope Wilton, uma mulher mais velha que perdeu o marido) e integra o papel do tempo na reorganização da dor.

É obviamente redutor catalogar a série como uma simples comédia, mas a comédia está lá e é uma das suas grandes lições: porque o humor é realmente uma das mais poderosas armas de saúde mental, felizes os que preservam a capacidade de aligeirar os acontecimentos trágicos e de nos fazer rir com eles. Por detrás de uma abordagem aparentemente niilista, After Life é um elogio à vida, aos outros e ao extraordinário nas pequenas coisas.