SEX EDUCATION | love isn’t about grand gestures. it’s just dumb luck.

[Sex Education, Laurie Nunn, Reino Unido, 2019-...]

É sabido que o humor é a melhor forma de falar a sério. E que falar a sério de sexo não é ainda um passeio no parque. Juntando estas duas premissas, a australiana Laurie Nunn criou para a Netflix a série Sex Education, que como o nome indica, versa sobre educação sexual. A peça central da narrativa é Otis (Asa Butterfield), um rapaz de 16 anos tímido e inexperiente cujo convívio diário com a mãe Jean (Gillian Anderson), uma terapeuta sexual muito descomplexada, o equipa de um saber inadvertido sobre a sexualidade muito superior ao dos garotos da sua idade. A enigmática Maeve (Emma Mackey), colega de escola, apercebe-se deste talento e propõe-lhe que criem uma espécie de consultório sexual para os alunos de Moordale High, repartindo os lucros: ela trata da logística, ele da terapia.

A jovialidade do enredo poderia cair com facilidade em lugares comuns e piadas demasiado óbvias, mas guarda várias surpresas. A primeira é o seu anacronismo: há telemóveis, computadores e Internet, mas toda a envolvente remete para os anos 90 – o guarda-roupa, a arquitectura, a decoração de interiores ou as referências musicais (a banda-sonora, que inclui Billy Idol, The Cure ou Violent Femmes, pode ser ouvida aqui). É uma viagem no tempo embalada pelo sotaque britânico dos actores, que contrasta com o ambiente liceal e personagens-tipo popularizadas pelo cinema americano: O miúdo brilhante à margem do seu contexto (Otis), a rebelde solitária de cabelo cor-de-rosa e meias de rede (Maeve), o rufia que se diverte a intimidar os colegas (Adam/ Connor Swindells), o gay sempre bem-disposto, melhor amigo de Otis e eixo cómico da narrativa (Eric/ Ncuti Gatwa), o grupo das miúdas fúteis e populares, o director insuportável.

Não fossem as questões do sexo transversais a idades e lugares, a ambiência vintage e geograficamente indistinta cria uma aura atemporal que cativa pela estranheza e afasta a série de produtos como Beverly Hills, 90210 (demasiado datado), Kids (demasiado negro) ou American Pie (demasiado parvo). O elenco é escolhido a dedo: Gillian Anderson numa das suas melhores composições (não há dúvida que o tempo favoreceu o talento e a  figura da eterna Scully de X Files), Asa Butterfield num papel que parece ter sido escrito à sua imagem e um leque de secundários que vale a pena ver crescer: Emma Mackey, Connor Swindells e, em especial, Ncuti Gatwa (merecia uma série só para ele), vão ocupando as suas personagens aparentemente estereotipadas e dando conta das suas várias camadas.

Ao longo dos oito episódios da primeira temporada, a série vai deslizando do chiché para as problemáticas profundas que os problemas sexuais tantas vezes mascaram: a insegurança com o corpo, a ansiedade relacional, a baixa auto-estima, a orientação sexual, o pânico da rejeição ou do romance, a decepção com o Outro ou com experiências vividas, a comunicação entre pais e filhos. Pelo meio, desmitificam-se temas como a virgindade, a masturbação, a descoberta do prazer, o aborto, as drogas, a medicação ou a homossexualidade, por meio de uma abordagem que pondera descontracção e cuidado e tendo como pano de fundo um humor subtil, inglês, que assegura a leveza das discussões difíceis e o alívio dos momentos mais dramáticos. Na descoberta das suas vulnerabilidades, as personagens vão-se revelando (ficamos a conhecer outra Maeve, outro Adam, outro Eric e uma mãe que não é assim tão liberal) e a narrativa adolescente torna-se adulta, seja porque não temos ainda todas as respostas, seja porque um antigo Eu se rende à nostalgia das meias de rede e Dr Martens enlameadas. Sex Education é talvez a série juvenil mais madura de que há memória. E tem ainda alguns conselhos para oferecer.

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SOU AUTOR DO MEU NOME MIA COUTO | sou um transmissor de recados.

[Sou Autor do Meu Nome Mia Couto, Solveig Nordlund, Portugal, 2019]

O cinema de Solveig Nordlund, realizadora sueca naturalizada em Portugal, tem mantido uma relação estreita com a literatura e seus autores. São exemplo disso os filmes sobre a vida e obra de António Lobo Antunes (o documentário Escrever, Escrever, Viver e mais tarde o filme A Morte de Carlos Gardel, baseado no livro homónimo), Marguerite Duras (o documentário biográfico com o seu nome), Richard Zimmler (O Espelho Lento) ou J.G. Ballard (J.G. Ballard: The Future Is Now e Aparelho Voador a Baixa Altitude). Surge agora mais um trabalho centrado numa figura literária. Narrado na primeira pessoa, Sou Autor do Meu Nome Mia Couto é um relato em que o autor nos apresenta o lugar das suas memórias – a cidade da Beira, em Moçambique – e nos conduz pelos caminhos da vida que acabaram por guiá-lo à literatura.

Com ligações ao Partido Comunista, o pai Fernando Couto parte para a Beira no início da década de 50 para escapar à perseguição e seguir a carreira de jornalista, editor e poeta, mandando buscar a mãe um pouco mais tarde, como era costume na época. Os três irmãos nascem já em Moçambique, terra a que chamaram casa. Apaixonado por gatos, Mia cedo escolhe o seu próprio nome, em homenagem aos muitos bichanos que passeavam na rua em frente à grande varanda da casa – uma janela para o mundo, “era a Internet da altura”. Pela janela contemplavam o duro retrato do colonialismo, da segregação, da guerra ali ao lado, do racismo. Em 1971, chegou a mudança para Lourenço Marques e os primeiros estudos em Medicina. O movimento estudantil era robusto, com ligações à Frelimo, causa que determina o abandono da faculdade e início da actividade como jornalista, que manteve após o 25 de Abril. As recordações de Moçambique cruzam a guerra colonial, a independência, o longo período de guerra civil, as dificuldades e a fome, o trabalho como jornalista, a militância na Frelimo, a paixão pela biologia e a chegada ao lugar da escrita.

Sou Autor do Meu Nome… mostra-nos um homem simples, que continua a recusar o estrelato e se passeia pelas ruas da Beira com a descontracção de quem pertence àquela terra, sem conseguir passar incólume às vicissitudes da sua fama internacional. Seguido pela câmara, é muitas vezes interpelado por gentes de todas as idades que o abordam para o abraçar, roubar selfies, e sobretudo contar histórias. Porque as pessoas pensam através de histórias, aqui “é quase impossível não ser escritor”. São histórias do fantástico, do mistério, de mortos que comandam os vivos, da natureza mutante. Histórias de gente que lhe pede que devolva em texto a polifonia das vidas, que fala ainda em muitas línguas e para quem a relação com as palavras é peculiar, fruto de uma condição histórica que as torna diversas, desviantes, adaptáveis. Com frequência, chegam-lhe palavras que não existem no dicionário embora lá façam falta. Por exemplo: improvisório – qualquer coisa provisória mas também improvisada.

Muitas serão as teses académicas que abordam a obra literária de Mia Couto (moçambicana? pós-colonialista?), será porventura uma das muitas situações em que correm os teóricos no encalço dos práticos, tentando explicar por meio de fórmulas criadas a essência do trabalho de um artista. Nenhuma delas poderá, porventura, explicar a escrita de Mia Couto com a transparência e simplicidade do auto-relato. O documentário de Nordlund, em estreia mundial no IndieLisboa 2019, é uma oportunidade para conhecer o universo pessoal e literário de Mia Couto através de um olhar guiado pelas cores quentes de Moçambique e do sotaque particular do protagonista, que observa a forma como a oralidade lhe invadiu a escrita e inflectiu as regras da gramática. Não há outra forma de contar as histórias das pessoas, e é essa, diz-nos ele, a grande tarefa de quem escreve. “Sou um transmissor de recados”. A incumbência de mero mensageiro atraca-o a um propósito humilde, que diz ser a razão da sua escrita: “a missão e o dever de contar aqueles que vivem na invisibilidade, tornar visível esses lados do mundo. O que as pessoas querem de um escritor não é que ele seja um ídolo, é que ele as traduza.”

AFTER LIFE | a good day is when I don’t go around wanting to shoot random strangers in the face, and then turn the gun on myself.

[After Life, Ricky Gervais, Reino Unido, 2019-...]

No início da série de seis episódios escrita, protagonizada e realizada por Ricky Gervais para a Netflix, vemos um vídeo da esposa de Tony, filmado pouco antes da sua morte, no qual ela lhe deixa instruções básicas para o dia-a-dia. Recorda-lhe que ele é um homem bom, que alimente o cão, que lave a loiça, que se esforce por ser feliz. Mas Tony perdeu a alegria de viver e vê-se incapaz de reencontrar entusiasmo no trabalho, nos amigos ou nas visitas ao pai idoso. Depois de contemplar o suicídio (do qual desiste por causa do cão), decide sobreviver à dor fazendo e dizendo o que lhe apetece, sem regras ou filtros, punindo os que o rodeiam com a sua revolta (às vezes indiferença) e uma espécie de honestidade bruta, agora vivida como um superpoder.

Em After Life, a simplicidade do argumento e a excelência dos actores são dispositivos usados de forma discreta, para melhor sondar temas familiares ao humor de Ricky Gervais: a velhice, a doença, a morte, o luto, o excesso de peso, o desencanto com a rotina diária. Em torno do anti-herói gravitam o cunhado bem-intencionado (Tom Basden) que é também seu chefe num pequeno jornal local, o colega gorducho (Tony Way), a colega chata (Diane Morgan) a nova repórter (Mandeep Dhillon), o pai demente (David Bradley), a enfermeira deste último (Ashley Jensen), um sem-abrigo a quem pagam para distribuir o pasquim (Tim Plester), uma prostituta simpática que ele converte em empregada doméstica (Roisin Conaty). Todos parecem empenhados em ajudá-lo, apesar de vítimas do seu pessimismo, observações cáusticas e ameaças de suicídio.

Embora os seis episódios exibam sobretudo o exercício da tal honestidade bruta de Tony sobre os amigos, colegas e família, contam num ritmo lento a história de um luto vulgar, agridoce, humano – é o seu grande arco dramático. A narrativa ilustra com precisão os detalhes de uma situação complexa (os problemas de sono e alimentação, a apatia, a perda do prazer no convívio, a tristeza profunda, a tendência para excessos), intercalando-os com histórias caricatas que Tony documenta nas suas reportagens, reflexões existenciais amargas e muito sarcasmo.

Existe, no entanto, uma dualidade na personalidade de Tony, já que o seu comportamento é inverso ao que nos é dado a perceber pelos relatos da esposa nos vídeos que lhe deixa. Essa dissonância – o homem bom que se transforma num idiota – é utilizada para evidenciar o vazio existencial da personagem, explicar a perplexidade dos amigos e guiar uma jornada de recuperação de um certo prazer de viver, mas também para testar os limites do humor ou a diferença entre ser honesto e ser cruel ou ofensivo (aspectos discutidos pelo humorista no stand-up Humanity, também disponível na Netflix). A personagem exibe ainda as contradições clássicas da depressão no luto, reflecte a importância das memórias e da partilha de experiências (brilhante, o encontro com a personagem de Penelope Wilton, uma mulher mais velha que perdeu o marido) e integra o papel do tempo na reorganização da dor.

É obviamente redutor catalogar a série como uma simples comédia, mas a comédia está lá e é uma das suas grandes lições: porque o humor é realmente uma das mais poderosas armas de saúde mental, felizes os que preservam a capacidade de aligeirar os acontecimentos trágicos e de nos fazer rir com eles. Por detrás de uma abordagem aparentemente niilista, After Life é um elogio à vida, aos outros e ao extraordinário nas pequenas coisas.

SOLIDÃO | caminhamos sozinhos na multidão digital.

A minha solidão
Não é uma invenção
Para enfeitar noites estreladas…
… Mas este querer arrancar a própria sombra do chão
E ir com ela pelas ruas de mãos dadas.

(José Gomes Ferreira)

Na 125.ª Convenção Anual (2017) a APA divulgou os resultados de uma investigação que sugere que a solidão aumenta em 50% o risco da morte prematura. Em 2018 o Reino Unido criou o Ministério da Solidão, gabinete que pretende combater as suas consequências em mais de 9 milhões de britânicos. Ainda em 2018 nasceu The Loneliness Project, um prédio habitacional online onde moram testemunhos de solitários de todo o mundo. Por cá, o Obsolidão (Observatório da Solidão do Instituto Superior de Ciências Empresariais e do Turismo) não tem dúvidas de que estamos perante um problema grave que deveria ser alvo de políticas concretas.

Um construto tradicionalmente associado à idade avançada, aos meios rurais, ao isolamento social e a níveis educacionais mais baixos transformou-se no século XXI numa realidade global, jovem, urbana, instruída e hiperconectada. Atingindo todas as faixas etárias e classes sociais, a solidão é hoje uma reconhecida questão de saúde pública de dimensão comparável à obesidade, com impacto não apenas na saúde psicológica (ansiedade, depressão, níveis de stress), mas também na saúde física (problemas cardiovasculares, distúrbios de sono, deficiências imunitárias). Tem sido identificada, em vários meios, como a grande epidemia contemporânea.

Do ponto de vista da Psicologia, é um diagnóstico desafiante. Embora as medidas de auto-relato sejam subjectivas e todos experienciemos momentos de solidão em algum momento da vida (que, se curtos e balizados no tempo, poderão ser altamente construtivos), existem aspectos objectivos – estado civil, estrutura familiar, dimensão da rede social – que poderão ajudar a inferir do seu grau, enquanto outros poderão sugerir informações contraditórias. Tal é o caso da utilização de múltiplas redes sociais, do número de interacções online ou do tempo despendido online. De facto, o paradoxo da Internet é uma das mais salientes mutações das sociedades modernas. As primeiras investigações sobre os efeitos da Internet perceberam a relação inversa entre o aumento das relações desenvolvidas e mantidas online e a diminuição dos contactos presenciais. A investigação sugere que este efeito perdura e atinge sobretudo os mais jovens, sendo expectável que se alastre e intensifique. Paradoxalmente, o autor do número de Dunbar (famosa teoria que postula a capacidade humana de manter um círculo social com um máximo de 150 relações) sugere que as possibilidades relacionais no ciberespaço não alteram realmente o número de conexões seguras e significativas, embora se observe um aumento evidente de relações superficiais (i.e., o número de relações reais dos utilizadores de redes sociais é, na verdade, igual ao dos indivíduos ausentes dessas redes). Solidão e isolamento social estão longe de ser sinónimos e existe um desacordo evidente entre a quantidade e qualidade nas relações.

Seja como for, no mundo hiperconectado em que vivemos, a possibilidade de comunicação e partilha é constante e instantânea. A existência online não apenas tem ganho terreno ao contacto face-a-face, mas tem vindo a alterar a forma como comunicamos e nos expressamos, e consequentemente, as próprias necessidades relacionais – ou, pelo menos, o seu formato. Tirar conclusões sobre o impacto do mundo digital na solidão é por isso difícil: Serão os actuais níveis de solidão produto da utilização da tecnologia ou será o seu uso excessivo resultante do isolamento acompanhado em que vivemos? Podemos culpar a tecnologia por não saber o nome dos nossos vizinhos?

Embora a solidão seja parte da natureza humana, os estudos sobre a solidão têm uma história relativamente curta na investigação psicológica. Neste momento, o seu crescimento exponencial, a ampliação dos contextos em que ocorre e a amplitude alarmante dos seus efeitos justificam a necessidade de novas linhas de investigação, abrangentes e multidisciplinares, que possam averiguar as suas especificidades e preparar os profissionais para uma intervenção tão urgente quanto inevitável. O contributo da psicologia e dos psicólogos neste contexto é fundamental e deve por isso constituir uma prioridade.

Publicado na PSIS21 a 28-02-2019.

YOU | i believe in love at first sight.

[You, Greg Berlanti & Sera Gamble, EUA, 2018-...]

A premissa é simples e bastante vulgar: Um gerente de livraria apaixona-se à primeira vista por uma cliente e fica obcecado por ela. You, série da Netflix adaptada a partir do livro homónimo de Caroline Kepnes, segue os passos de Joe (Penn Badgley) enquanto este segue os de Beck (Elizabeth Lail) e tenta por todos os meios conquistá-la. A sinopse insípida ganha interesse no duplo sentido do comportamento persecutório do seu protagonista: a presa é perseguida não apenas nas ruas, através das vitrines dos cafés ou da janela de sua casa, mas através das suas contas públicas no Facebook, no Instagram, no Twitter, que se revelam mais instrumentais do que a vida real. Depois de um acidente oportuno que permite a Joe apoderar-se do telemóvel de Beck, o acesso à vida da rapariga passa a ser quase total e permite-lhe manipular tudo o que acontece à sua volta. O plano de Joe é isolá-la – das amigas, do namorado pouco recomendável – e tê-la inteiramente para si.

Nos primeiros episódios, o narrador insistente dá-nos a conhecer a vida e a personalidade de Beck, à qual vai tendo acesso através da sua extensa pegada digital. À volta da estudante de literatura empenhada mas desprovida de um talento demasiado evidente gravita um estereotipado grupo de amigas que mais se assemelha a um expositor de millennials urbanas: a menina tola, a menina rica, a digital influencer. Peach (Shay Mitchell), uma delas, utiliza o dinheiro e as inseguranças de Beck para exercer sobre ela o controlo que Joe ambiciona, acabando por formar com eles um improvável triângulo amoroso. A atitude protectora de Joe para com Paco, um garoto maltratado que vive no mesmo prédio) e alguns flashbacks do seu passado confuso (uma relação mal resolvida, um tutor abusivo outrora dono da tal livraria) sublinham uma fronteira fina entre o tipo simpático e o obstinado perigoso.

O desenrolar da trama oferece exclusivamente a visão de Joe, empático e sombrio, e apresenta-nos um protótipo do stalker dos tempos modernos que tem tanto de interessante como de assustador. Ao mesmo tempo que discute a fragilidade da privacidade na era das redes sociais, You aponta também os seus perigos e a exposição absurda a que estamos sujeitos enquanto nativos e migrantes digitais desinformados, ou pelo menos inconsequentes. Desse ponto de vista, a série tem um potencial pedagógico que não é desprezível e que produz certamente impacto no espectador, mas esse efeito desvanece-se ao longo da temporada, à medida que vamos observando demasiadas bizarrias relatadas do ponto de vista de uma personagem doente … De resto, o uso abusivo da voz off, o incessante monólogo interior de Joe no debate com as suas dificuldades, fantasmas, observações sobre Beck e a sua vida e referências literárias ocasionais, canaliza a narrativa para uma perspectiva única, empobrecendo o entendimento sobre as restantes personagens, que permanecem planas e sem textura, como se observadas à distância.

Ao longo da temporada, a narrativa revela uma série de incongruências e exageros que lhe retiram plausibilidade, e consequentemente, interesse: A dada altura, You é demasiado “americana” para resistir à tentação do sangue, do crime e da total psicopatia do protagonista, transformando a série num thriller psicológico banal a que já assistimos demasiadas vezes.

CIBERESPAÇO | a morte e o luto no mundo virtual.

A questão da morte não é de investigação fácil para a Psicologia, apesar de toda a acção humana (a religião, a arte, a literatura, a economia, a ciência) ser guiada pela tentativa de negação ou superação da finitude. Nos últimos anos, porém, surgiu um corpo teórico que especificamente investiga “o papel da morte na vida” (e.g., Solomon et al., 2015), lançando alguma luz sobre o tema e apontando alterações, potenciadas pelo advento da era tecnológica, no sistema de crenças relacionadas com a morte – um fenómeno biológico com uma dimensão simbólica impregnada de significados culturalmente determinados (pelo contexto histórico e moldura social, religiosa e económica do enlutado). Na cultura ocidental, o luto tem sido encarado como um período de desvinculação que deve corresponder, num decurso saudável, a um processo interior e faseado de negociação com vista à aceitação da perda – assim afirma Freud no artigo seminal Luto e Melancolia, e muitos que se lhe seguiram. Contudo, a tecnologia tem vindo a alterar a vivência do luto, deslocando-o do plano individual e psicológico para um espaço virtual, colectivo e público – o ciberespaço.

Com o aumento das interacções online, o luto virtual (cybermourning) – conceito que descreve a transformação da perda individual e solitária num evento colectivo que decorre no ciberespaço (Hartman, 2012) – tornou-se numa parte significativa do processo, às vezes além dos rituais tradicionais, outras vezes em vez deles. A experiência da perda no mundo virtual representa, de certa forma, o retorno a uma vivência partilhada que era comum na era pré-industrial e foi desaparecendo com o desenvolvimento do capitalismo, o deslocamento da morte para os hospitais e a proibição dos enterramentos nas igrejas e seu afastamento para fora da comunidade. São alguns dos factores que contribuíram para a marginalização do luto a que assistimos no século XX, uma era de negação da morte e seus símbolos onde o enlutado e o confronto com a dor são segregados. Viabilizando a manifestação e reconhecimento públicos de um pesar antes expresso de forma privada, o luto virtual vem alterar a relação culturalmente estabelecida entre sociedade e enlutados, mas também entre mortos e vivos. Os memoriais online e cemitérios virtuais, cujo advento remonta ao final do séc. XX, foram as primeiras plataformas desta nova visão, próxima de um modelo de pensamento não ocidental que permite a elaboração da tristeza, a partilha de afectos e memórias e a gestão de um manancial de informação sobre o falecido (fotos, mensagens, vídeos). Ainda assim, o acesso a um cemitério virtual implica um acto voluntário (como a entrada num cemitério físico), ao contrário das redes sociais, cuja natureza assíncrona promove a difusão em larga escala de concepções, tradições, rituais, comportamentos e emoções. O aumento da visibilidade da morte na Internet tem provocado uma curiosidade crescente, bastando citar o actual interesse popular na fotografia cemiterial ou no necroturismo.

Viabilizando a manifestação e reconhecimento públicos de um pesar antes expresso de forma privada, o luto virtual vem alterar a relação culturalmente estabelecida entre sociedade e enlutados, mas também entre mortos e vivos.

Com 2.27 mil milhões de utilizadores activos e 30 milhões já falecidos, o Facebook é uma comunidade global com cemitério próprio, cuja dinâmica tem alterado as trajectórias de envolvimento social em torno da morte. Com ele emergiu o luto por celebridades, causas, desconhecidos ou até alguém realmente íntimo com quem nunca interagimos face-a-face. As manifestações online de pesar parecem representar uma nova forma de enfrentamento. Kasket (2012) identificou diferenças significativas entre a vivência do luto em memoriais ou cemitérios virtuais e no Facebook, já que aqui as manifestações ocorrem num espaço que já pertencia ao falecido (o seu perfil), anulando a necessidade de criar uma representação da pessoa e evitando a quebra do vínculo. Um novo processo de gestão da memória (os perfis póstumos são geridos por terceiros) contrata também com o tradicional (e.g., sepulturas, epitáfios, memoriais). É agora possível visitar uma lápide digital interactiva que sugere uma presença, inclui o falecido no quotidiano dos sobrevivos e facilita um sentimento de conexão permanente. As redes sociais permitem ainda superar distâncias geográficas, revisitar memórias, apresentar condolências sem invadir, evitar o constrangimento de lidar com a dor e criar grupos de apoio formais e informais. Se presencialmente se esperam demonstrações de estoicismo, a vivência online destes fenómenos vem catalisar a expressão emocional e a compaixão, possibilitar o debate da relação e o reconhecimento e partilha do sofrimento – aspectos que são centrais na terapia tradicional do luto.

A Psicologia começou por estudar o sofrimento individual e familiar, procurando fornecer aos profissionais ferramentas para apoiar os enlutados, prevenindo e intervindo na dor da perda. Contudo, a investigação psicológica recente, observando estes fenómenos, sugere alterações na forma como o luto é vivido, sugerindo que a natureza do vínculo é de facto dinâmica e perene: o propósito do luto poderá ser a elaboração de nova ligação ao falecido que possa ser integrada na vida dos sobreviventes (e.g., Klass et al., 1996), evitando problemas emocionais associados através da aceitação da continuidade da relação – a ligação não termina, é transformada. Estas novas abordagens psicológicas têm permeado um novo discurso em torno da morte: o vínculo persistente, que Freud concebia como patológico, passou a ser visto como adaptativo e reconfortante.

A tecnologia é um recurso importante e inevitável para a dessegregação do luto, mas as novas estéticas fúnebres não são isentas de conflitos. Há desafios prementes relacionados com a propriedade da identidade póstuma, a capacidade tecnológica para gerir identidades conflituantes e a partilha desregrada de informação (divulgação de segredos, ofensas, etc.), aspectos que podem alterar a identidade do falecido na percepção de amigos e familiares. Com registos online detalhados das nossas vidas, faz sentido que nativos e emigrantes digitais reflictam sobre o seu legado digital, existindo já serviços (e.g., DeadSocial) que permitem considerar estas questões. Não obstante, a investigação sugere que o luto virtual é um fenómeno emergente, cujo impacto é sobretudo positivo e não varia com a idade (Roberts, 2004). Estes dados são relevantes para entender os efeitos globais das redes sociais: a sua utilização como meios de expressão de pesar é uma evidência inquestionável da incorporação da Internet em todos os domínios da vida (individual, social e cultural). É por isso essencial que os psicólogos considerem o papel da tecnologia na organização das tarefas do luto e potenciem os seus benefícios. A adaptação das perspectivas e modelos tradicionais – incorporando as especificidades das relações online, integrando os factores digitais na avaliação clínica das situações e desenvolvendo soluções de apoio online devidamente validadas – é fundamental na adequação do contributo da Psicologia às exigências do mundo virtual.

Referências

Pyszczynski, T., Solomon, S. & Greenberg, J. (2015). The Worm at the Core: On the Role of Death in Life. London, UK: Penguin Books.

Hartman, S. (2012). Cybermourning: Grief in Flux From Object Loss to Collective Immortality, Psychoanalytic Inquiry, 32(5), p 454-467, Psychology and Behavioral Sciences Collection, EBSCO.

Kasket, E. (2012) Continuing bonds in the age of social networking: Facebook as a modern-day medium. Bereavement Care, 31(2), p 62-29.

Klass, D., Silverman, P.R. and Nickman, S. (Eds.) (1996). Continuing Bonds: New Understandings of Grief.  Washington: Taylor and Francis.

Roberts, P. (2004). Here today and cyberspace tomorrow: Memorials and bereavement support on the web. Generations, 28(2), 41-16.

Publicado na PSIS21 a 28-12-2018.

SUSPIRIA | when you dance a dance of another, you make yourself in the image of its creator.

[Suspiria, Luca Guadagnino, E.U.A./ Itália]

Depois do melancólico Call Me By Your Name (2017), Luca Guadagnino surpreendeu os cinéfilos ao anunciar o remake do clássico de terror de Dario Argento, Suspiria. A acção decorre no ano de 1977 (ano de estreia do filme de Argento) na cidade de Berlim e nas profundezas – literalmente – da prestigiada Companhia de Dança Helena Markos, um espaço inteiramente ocupado por mulheres e gerido por um grupo sinistro de criaturas. A trama acompanha a ascensão meteórica de Susie Bannion (Dakota Johnson), uma bailarina americana sem treino formal que consegue uma audição com Madame Blanc (Tilda Swinton), uma das lendárias directoras da companhia. A chegada de Susie coincide com um momento agitado da escola, o desaparecimento da prima ballerina Patricia (Chloë Grace Moretz), que assim deixa vago o lugar da protagonista no próximo espectáculo da companhia. Madame Blanc rende-se ao talento de Susie e começa a prepara-la para esse lugar; mas a brutalidade da sua dança (saltos impossíveis, movimentos bruscos e contundentes, contorções grotescas) requer sacrifícios – no sentido literal e figurado. Na abertura do filme, uma Patricia muito perturbada revela ao seu terapeuta, Dr. Jozef Klemperer, o quotidiano sombrio da companhia e a verdadeira natureza das suas dirigentes: um grupo de bruxas no qual três mães (Escuridão, Lágrimas e Suspiros) lutam por posições de domínio…

A prestação de Dakota Johnson no linóleo tem sido muito elogiada e comparada até com a de Natalie Portman em Black Swan.

Dividido em seis actos e um epílogo, Suspiria de Guadagnino representa uma reinterpretação extensa do filme de Argento, com um tempo e espaço concretos, uma subtrama política e o movimento contemporâneo no lugar do ballet clássico. Mais do que isso, o argumento de David Kajganich é embebido de uma estética extravagante e estilizada: a palete fotográfica hibernal de Sayombhu Mukdeeprom (que também filmou Call Me By Your Name) em lugar do festim sangrento de Argento, o design de produção brutalista de Inbal Weinberg (inspirado no ambiente da Alemanha da época), o guarda-roupa de Giulia Piersanti ou a arrepiante banda-sonora de Goblin (presente também no filme original) e a belíssima partitura de Thom Yorke. No elenco, a heroína romântico-masoquista de Fifty Shades of Grey, Dakota Johnson, empresta a Susie um pouco da aura da sua anterior personagem, apresentando-se num misto de inexpressão e sensualidade reprimida que ao longo da trama se vão metamorfoseando. Não há nada de explicitamente sexual em Suspiria à excepção da presença de Johnson, que parece suficiente para cunhar a carga erótica do filme. Mesmo a sua prestação no linóleo tem sido muito elogiada e comparada até com a de Natalie Portman em Black Swan (ambas as actrizes foram treinadas por Mary Helen Bowers) – a comparação é excessiva, sem desmérito para o esforço de Johnson. Mas a estrela mais brilhante é naturalmente Tilda Swinton no papel de Madame Blanc – uma Pina Bausch fantasmagórica – e ainda, irreconhecível, nos papéis de Helena Markos e do psicanalista Jozef Klemperer. Os movimentos e semblante perturbador de Swinton quase dispensam as palavras.

Importa ainda destacar o trabalho do coreógrafo belgo-francês Damien Jalet. Guadagnino terá comentado que pretendia que a dança fosse um elemento central, a “linguagem secreta das bruxas” e a sua forma de expressão de poder. Esta indicação foi a grande inspiração de Jalet para as sequências assombradas do grupo de bailarinas, bem como o trabalho de Martha Graham, Mary Wigman (uma das suas obras mais famosas chama-se, precisamente Witch Dance) e Pina Bausch, de resto as figuras que inspiraram a composição da personagem de Madame Blanc. Há pelo menos três momentos de dança verdadeiramente sinistros: No início, a audição de Susie, na qual os seus movimentos violentos parecem conduzir a agonia de uma bailarina que se contorce na sala ao lado; no final – um ritual de bruxaria e transmutação orientado por movimentos crus e inorgânicos de bailarinas despidas; e a peça Volk, a composição que a companhia ensaia e Susie protagoniza. Volk é baseada em Les Médusées, uma criação de Jalet de 2013 cujos temas se sobrepõem naturalmente aos de Suspiria: As três Górgonas vs. as Três Mães. A coreografia original para três mulheres foi modificada para 12 bailarinas e uma solista, apostando em movimentos tecnicamente simples, mas rígidos e robustos. A estrutura da peça é construída a partir de um pentagrama traçado no chão por uma fita prateada a demarcar os movimentos viscerais das bailarinas, que parecem tentar escapar a um ritual sangrento de magia negra – ideia reforçada pela iluminação intermitente e pelos corpos cobertos apenas por cordas vermelhas. A performance de Volk é o fio condutor da narrativa – a tarefa que possibilita a agregação definitiva da pupila ao covil de feiticeiras – e o grande momento do filme.

Enquanto objecto cinematográfico, parece mais adequado encarar este Suspiria como um exercício de actualização de um objecto de culto, inevitavelmente impregnado de dispositivos modernos e de um virtuosismo técnico e estilístico que é assinatura do seu realizador. O propósito do terror e do choque, no entanto, dissolve-se num argumento demasiado confuso, que não explora as suas potencialidades (desperdiçando, por exemplo, a ambiguidade da relação professora/pupila entre Madame Blanc e Susie) e acaba por fragmentar a já demasiada informação sensorial. O ritual e o cenário grotescos da conclusão do filme são de tal forma exagerados que arrasam a mais elevada capacidade de suspension of disbelief – talvez funcione para aficionados do género. Felizmente, a dança, interpretada e evocada, materializa o melhor que Suspiria tem para oferecer.

★★★★★★

[originalmente publicado em Les Corps Dansants]