a psicologia em 2023: desafios e tendências.

A Psicologia é uma ciência largamente dependente do espírito do tempo. As crises sociais, económicas e políticas, a inovação científica e tecnológica ou as transformações no pensamento global face a matérias diversas têm uma influência profunda na amplitude do seu campo de estudo, na investigação, na formação e na prática ou na diversidade de contextos de intervenção, tradicionais ou emergentes. Os grandes desafios do século XXI trouxeram-nos novos temas (a crise climática, as desigualdades e discriminação, a massificação da tecnologia, ou mais recentemente, uma pandemia e o conflito armado ainda em curso), viabilizando e exigindo contributos que extravasam as práticas e modelos tradicionais. Num quadro de aumento global dos problemas de Saúde Psicológica, da insuficiência gritante de cuidados a este nível e de desigualdades estruturais de acesso à informação e à Saúde, confrontamo-nos com enormes demandas e com a imprescindibilidade da nossa presença nos mais diversos contextos. Esta necessidade contínua de expansão do foco da Psicologia é, possivelmente, um dos aspectos mais estimulantes do nosso trabalho.

Reconhecendo que o panorama global naturalmente impacta os desígnios da nossa ciência, a American Psychological Association (APA) apresenta, anualmente, um conjunto de áreas que consideram constituírem tendências da Psicologia para o ano que se inicia, antecipando-se, em 2023, que mais ainda se acentue a consciência da multiplicidade e urgência da nossa acção.

Uma das tendências mais salientes nos últimos anos, que seguramente se manterá, diz respeito à superação de um viés cultural que marcou a profissão, privilegiou a investigação de determinados grupos, e mesmo legitimou a discriminação e opressão de outros. Num momento histórico de consciencialização e combate às desigualdades e à discriminação, a Ciência Psicológica tem o dever ético de diversificar as populações e fenómenos que investiga, por forma a desenvolver um olhar multicultural e uma compreensão abrangente do comportamento humano.

Os/as profissionais da Psicologia possuem, de facto, ferramentas privilegiadas para liderar este debate, promover a mudança de crenças e comportamentos e apoiar o desenvolvimento de sociedades inclusivas, igualitárias e justas. Esta batalha pode e deve ser travada em vários palcos, em particular, nos locais de trabalho, contextos em que devem continuar a alertar para a urgência de considerar a Saúde Psicológica dos/as trabalhadores/as e a oferecer inestimáveis contributos para a construção de culturas organizacionais que privilegiem a Saúde Psicológica e o bem-estar. Ao mesmo tempo, face à “crise global de Saúde Psicológica” e ao seu particular impacto nas crianças e jovens, os/as Psicólogos/as devem também aprofundar o conhecimento desta realidade, por forma a intervir eficazmente, numa dimensão individual e institucional, junto de escolas ou universidades. Neste âmbito, problemáticas específicos, como a prevenção do suicídio, ganham maior destaque. E na certeza de que nenhuma destas tarefas é possível na ausência da articulação com outras áreas do saber, o nosso combate aos grandes desafios societais é cada vez mais pautado pelo reconhecimento da relevância de abordagens multidisciplinares. Uma das áreas-chave para esta articulação continuará a ser a tecnologia e a IA aplicadas ao trabalho dos/as Psicólogos, quer como meios de promoção de literacia, quer como ferramentas de prevenção e promoção que complementam a intervenção “tradicional”.

Este compromisso de alargamento da visão da Psicologia à totalidade da experiência humana acelera, ainda, a urgência de que os insights da Psicologia cheguem a outros/as profissionais e ao público, assistindo-se não só a uma maior disponibilidade dos/as Psicólogos/as para essa partilha imediata, bem como à expansão dos meios e plataformas para o fazer – redes sociais, podcasts, presença nos media, etc. Nesse âmbito, é indispensável continuar a contribuir para o combate urgente à desinformação e fake news, clarificando os seus mecanismos e fornecendo ferramentas para a sua detecção e prevenção.

Por fim, é importante destacar um importante reposicionamento da profissão, decorrente da investigação recente (instigada por um conjunto de eventos críticos): A Saúde Psicológica não diz apenas respeito ao indivíduo, mas depende de um conjunto de determinantes socioeconómicos (por exemplo, o trabalho ou a condição socio-financeira) nos quais temos, também, a capacidade de intervir. Por tal, os/as Psicólogos/as devem continuar, junto de decisores, a advogar por políticas públicas promotoras da Saúde das pessoas comunidades, informadas pela evidência científica e sustentadas numa acção colaborativa e multidisciplinar.

Cada tempo tem os seus desafios – e a sua Psicologia. Este é o nosso tempo. Venha 2023.

Publicado no blog Psicarreiras a 19-01-2023.

“a pobreza leva a más decisões, comportamentos destrutivos, problemas de saúde mental e mais pobreza: é uma pescadinha de rabo na boca”

Faltar dinheiro no final do mês coloca as pessoas à mercê de um contexto psicológico que as limita na resolução de problemas. A “mentalidade da escassez” explica como dificuldades económicas conduzem à indisponibilidade psicológica – e a psicóloga Edite Queiroz sabe como o combate a uma pressupõe o fim da outra.

Conduzir durante uma tempestade. A atenção não se dispersa. O olhar recai sobre aquilo que se dispõe imediatamente em frente. E mesmo a vista da estrada poderá ser dificultada pela chuva. A metáfora, ainda que imperfeita, foi usada por Eldar Shafir para ilustrar a própria teoria da “mentalidade da escassez”, explicada no livro “Tirania da escassez: porque é que tão pouco significa tanto!”.

O professor de ciências comportamentais da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, e ex-consultor da Casa Branca no tempo do presidente Barack Obama, explica como a perceção de escassez, seja ela financeira ou de outra ordem, leva as pessoas a um estado psicológico em que a “largura de banda” da máquina de dois quilos que vive dentro do crânio deixa de saber lidar com assuntos considerados secundários naquele momento.

Esse mindset, que, sem melhor tradução, é definido como mentalidade, compromete a resolução de problemas, a capacidade de avaliar as opções disponíveis e até de tomar boas decisões. Quem o diz é a psicóloga Edite Queiroz, numa entrevista ao Expresso que tenta escrutinar em que é que a escassez pode afetar a saúde psicológica e, por consequência, como é que a falta desta corrobora a situação de escassez, numa simbiose que se prolonga no tempo e afunda desigualdades. E a psicóloga grita: já não chega só ajuda psicológica. Há que eliminar a pobreza.

As pessoas com recursos mais escassos vivem com menos disponibilidade psicológica para se dedicarem a assuntos não imediatos?
Quando se vive numa situação de escassez económica crónica, uma situação de grande precariedade que se prolonga no tempo, todos os recursos das pessoas, inclusivamente os cognitivos, são dedicados e concentrados na resposta a essas urgências. De tal forma que tudo o que exceda a resposta a essas urgências – que podem ser comprar comida, pagar a renda, pagar o empréstimo ou acertar contas atrasadas – deixa de ser relevante para elas, acaba por ficar secundarizado e depois até esquecido. Fazendo uma analogia com a categorização das necessidades de Maslow, é como se todos os nossos recursos mentais fossem dedicados à satisfação do primeiro nível da pirâmide, à base, e faltassem recursos para aceder aos outros níveis.

O esquecimento de questões consideradas acessórias, a longo prazo, tem um comprometimento sério?
Sim. Quando esse mindset de escassez se instala, a pessoa passa a ter um pensamento enviesado no que diz respeito à resolução de problemas e à tomada de decisão – e pode, inclusivé, tomar más decisões e ter comportamentos destrutivos.

A relação entre a pobreza e a saúde mental é complexa e bidirecional: uma pescadinha de rabo na boca.

Que comportamentos são esses?
Por exemplo, ser menos produtivo ou vítima daquela representação social de que não tem tanta disponibilidade para trabalhar. Pode ter mais dificuldades no exercício da parentalidade, tomar más decisões financeiras, como contrair créditos, ou exibir comportamentos menos saudáveis. Outro exemplo clássico, que é muitas vezes uma discussão frequente em conversa, é o das pessoas com menos recursos que têm um telemóvel topo de gama.

Ou as pessoas que vão tomar o pequeno-almoço todos os dias fora.
Exatamente. Ao mesmo tempo que isto acontece, as próprias crenças sociais sobre si mesmo também se vão alterando. As pessoas deixam de sentir que são capazes, que têm os recursos necessários para sair da situação. Isto tudo junto provoca uma espécie de afunilamento das perspetivas de futuro, um pouco como se a ponta da pirâmide do Maslow [a da autorrealização] fosse esquecida.

Os tempos são propícios a este mindset?
Nós estamos a viver num tempo em que o impacto dos determinantes socioeconómicos na nossa saúde mental é de tal forma evidente que a psicologia tem de insistir nesta necessidade de não pensar a saúde mental como algo apenas pertencente ao indivíduo, mas também à sociedade.

A Organização Mundial da Saúde prevê que a depressão possa ser a doença mais prevalente no mundo, em 2030.
Se quisermos abordar o problema de forma economicista, será também aquela que mais custos económicos vai trazer aos países. Numa altura em que os problemas de saúde mentais tomam proporções epidémicas, não podemos perder de vista que a relação entre a pobreza e a saúde mental é complexa e bidirecional: uma pescadinha de rabo na boca.

Então, podemos dizer que a pobreza vai condicionar mais pobreza e mais desigualdade? É inevitável?
Sim. Quando dizemos que a relação da saúde mental com a pobreza é bidirecional, estamos a dizer exatamente isso. Ter poucos recursos económicos ou viver numa situação de escassez é um fator de risco para ter problemas de saúde mental. Por outro lado, estes problemas quando instalados e agravados comprometem ainda mais as competências da pessoa para sair da pobreza.

É evidente que nós hoje somos uma sociedade mais doente do que éramos há três anos, quando começou a pandemia?
Do ponto de vista psicológico é bastante evidente. Há dados que corroboram isso. No que diz respeito aos problemas de saúde mental mais comuns – a depressão e a ansiedade -, temos um aumento de 25% na incidência durante o primeiro ano da pandemia. De uma forma clara, os problemas de saúde mental aumentaram em todo o mundo, ao mesmo tempo que, por insuficiência dos serviços, tornou-se mais complicado ter acompanhamento durante a pandemia.

Em que ponto este aumento não tem que ver com maior disponibilidade para detetarmos os problemas?
Eu diria que há uma componente disso, no sentido em que a saúde mental de facto ganhou uma visibilidade muito grande no período pandémico. Mas, mais uma vez, é uma pescadinha de rabo na boca. Por um lado, as pessoas começaram a exibir mais problemas a este nível, o que tornou necessário que este tema começasse a ser falado. Isso teve um reverso positivo, porque diminuiu um pouco o estigma associado a estas questões. Agora, lentamente, as pessoas estão a conseguir aceitar que qualquer um de nós, em função das suas circunstâncias, pode vir a ter um problema de saúde mental. Paralelamente, o aumento da literacia em saúde psicológica aumenta também a disponibilidade para procurar ajuda adequada. As pessoas sentem menos o dedo apontado.

E há ajudas disponíveis?
São muito parcas. Ainda temos um longo caminho a percorrer a esse nível. Em Portugal, no Serviço Nacional de Saúde, há números muito abaixo do que seria desejável. Ao todo, existem pouco mais de mil psicólogos. E quem não tem dinheiro não consegue ir ao privado.

Ter poucos recursos económicos ou viver numa situação de escassez é um fator de risco para ter problemas de saúde mental. Por outro lado, estes problemas quando instalados e agravados comprometem ainda mais as competências da pessoa para sair da pobreza.

E são cada vez mais os que não têm dinheiro.
Exatamente. Isto associado à crise económica e ao facto de as pessoas não terem recursos para responder às necessidades básicas, como falávamos há pouco, acaba por secundarizar a saúde mental.

A pandemia, a guerra e agora a crise colocaram-nos numa espécie de redoma espacial que tão cedo não vamos conseguir estudar. De que forma é que estas diferentes acontecimentos podem ter diferentes impactos?
Os acontecimentos são diferentes, mas o impacto psicológico que provocam não tem assim tanta diferença. Nós, no início da pandemia, vivemos uma situação desde logo provocada pelo stress e preocupação das primeiras notícias. Depois, foi todo o stress associado aos confinamentos, que não foi só ficarmos em casa impedidos de nos relacionarmos com os outros, mas foi também tudo o que isso provocou dentro de casa: disrupção das rotinas familiares e laborais, a introdução do teletrabalho, a educação à distância, o apoio a familiares mais velhos, a solidão, a própria doença e as consequências que isso teve, o luto. Tudo isto é uma caldeirada muito complicada.

E a guerra tem em nós um impacto semelhante?
A questão é não sabermos se houve sequer um período de recuperação. Na verdade, a pandemia foi-se atenuando, apesar de continuarmos a lidar com o vírus. Contudo, com ela veio um conjunto de problemas. Houve quem deixasse de trabalhar e outros, como os profissionais de Saúde, que passaram a trabalhar o triplo. Houve de tudo e nada foi positivo. O que não houve foi um período, depois da pandemia, que nos permitisse sarar de todas estas perdas e de todas estas situações. Continuamos a viver as consequências da crise económica que a própria pandemia tinha instalado, e que agora está a ser agravada por este contexto sociopolítico mais lato. Continuamos a viver num clima de incerteza. Estamos até a ter de nos habituar a uma espécie de mundo novo. Ainda não recuperámos, e é preciso ter em conta que nós já tínhamos problemas antes. Há um número que eu cito com frequência, porque é muito impactante: um terço das pessoas que trabalham em Portugal são pobres. É um dado absolutamente assustador. Um trabalho, por si, já não é condição para escapar a uma condição de escassez económica.

As pessoas deixam de sentir que são capazes, que têm os recursos necessários para sair da situação. Isto tudo junto provoca uma espécie de afunilamento das perspetivas de futuro

Por isso, o projeto ‘Final à Pobreza’, da Ordem dos Psicólogos?
Pois, a Ordem dos Psicólogos está a consultar os profissionais da psicologia para uma espécie de levantamento de estratégias e de boas práticas para fazer um combate à pobreza. É muito evidente que os psicólogos podem intervir a vários níveis.

E quais podem ser esses níveis?
Os psicólogos têm uma ação que começa no nível individual e vai até à consultadoria em políticas públicas. Podem trabalhar em educação psicossocial, nas escolas, ajudar decisores a estruturar medidas de combate à pobreza, podem promover ações de literacia direcionada para grupos específicos. Mas também não podemos esquecer que nada se faz sem garantir o acesso a serviços de qualidade que realmente consigam suprir as necessidades, algo que não temos em Portugal. Há que apostar na literacia em saúde psicológica, para as pessoas perceberem quais os riscos que correm quando estão em determinadas situações e conseguirem identificar mais facilmente os sinais e procurar ajuda atempadamente.

Quando chegamos a este ponto, podemos não conseguir resolver um problema individual só com intervenção psicológica?
Esse é o meu ponto fundamental. Não descurando do que a psicologia e os profissionais da psicologia podem fazer pela saúde psicológica das pessoas, temos de ter noção de que a resposta global não se faz apenas com isso.

Então?
Faz-se modificando os determinantes sociais e económicos que nos rodeiam e que impactam negativamente a nossa saúde mental. Tem de ser uma resposta em duas frentes. Ainda para mais, estamos a falar do contexto português, onde esta caldeirada cai sob um quadro em que uma em cada cinco pessoas já tinha um problema de saúde psicológica.

Podemos habituar-nos a viver sob esses condicionantes?
Nós habituamo-nos a viver com eles, mas o impacto que têm na nossa saúde progride sozinho.

Publicado no Expresso a 04-01-2023.

a vodafone e o avesso dos bons propósitos.

Antes de 2020, os problemas de saúde mental estavam já reconhecidos como uma questão de saúde pública, inclusive em Portugal, onde cerca de 23% da população vive com um problema de saúde mental. A pandemia COVID-19 veio escurecer este cenário. À própria doença e ao isolamento provocado pelos períodos de confinamento, juntaram-se o stresse e a preocupação constantes, lutos inesperados, o aumento da violência doméstica ou a necessidade de adaptação súbita ao teletrabalho e ensino à distância, mas também a perda de rendimentos, o aumento das desigualdades e uma crise socio-económica que lançou milhares para a precariedade, para o desemprego e para a pobreza. Estas circunstâncias conduziram a um aumento generalizado dos  problemas de saúde mental: No primeiro ano da pandemia de COVID-19, a prevalência global de ansiedade e depressão aumentou em 25%.

Hoje, uma pandemia silenciosa afecta cerca de mil milhões de pessoas em todo o mundo, com um impacto desproporcional nas pessoas mais velhas, nas mulheres e nos jovens. Um relatório recente da OCED revelou que a proporção de jovens com sintomas de depressão passou a ser pelo menos 50% maior do que a generalidade da população. Os jovens são, também, quem mais facilmente recorre a apoio especializado – mas nem sempre este está disponível. Persiste um subinvestimento histórico em saúde mental que não permite responder a um problema cuja solução é vital para a saúde global das comunidades e das pessoas. Em Portugal, o país da OCDE com o mais elevado consumo de anti-depressivos, as 5.532.708 embalagens vendidas no primeiro semestre de 2022 (mais 8.2% que em 2021) custaram 22.2 milhões de euros ao SNS – onde, na totalidade, trabalham pouco mais de 1.000 Psicólogos e Psicólogas. Nos próximos 10 anos, a depressão será a doença mais frequente no planeta e sobrecarregará os países mais do que qualquer outra.

Nunca, como agora, se falou tanto de saúde mental. E é inegável que a visibilidade extraordinária que adquiriu nos anos da pandemia tem contribuído para a diminuição gradual do estigma e para o aumento da literacia – um ganho imenso, cuja importância não pode ser desvalorizada. A saúde mental foi introduzida na agenda mediática, foi assumida por figuras públicas, foi finalmente naturalizada: Todos/as, a qualquer momento, podemos debater-nos com um problema de saúde mental. É disto exemplo a recém-lançada campanha de Natal da Vodafone, onde um rapaz possivelmente deprimido recebe uma chamada de uma desconhecida, que acaba por arrancá-lo da sua tristeza. A campanha pretende, e bem, mostrar que falar ajuda e sensibilizar para a procura de apoio

Captando o assunto do momento, a campanha apela à emoção, não só para educar o público, mas (e sobretudo) para vender, algo que a publicidade há muito descobriu. Olhe-se para ela com cautela, já que, a par dos seus nobres propósitos, opera a mercantilização de um problema de saúde pública, enquanto, nos bastidores, persistem condições que minam a saúde mental das pessoas – também na própria Vodafone.

Em Portugal, mais de cem mil pessoas trabalham em call centers – com maior concentração nas grandes operadoras de telecomunicações como a Vodafone, mas também na MEO/Altice, na NOS Comunicações e na Nowo – em regime de subcontratação, muitos com contratos a prazo em empresas de trabalho temporário e outsourcing, para preenchimento de postos de trabalho permanentes; a grande maioria encontra-se em situação de precariedade laboral há vários anos, com percurso por várias empresas de trabalho temporário e outsourcing. Em Abril de 2021, por exemplo, os sindicatos denunciaram, uma vez mais, as condições de trabalho nos call-centers destas empresas, reclamando melhores condições e vínculos de trabalho efectivos. Em Maio do mesmo ano, deslocaram-se ao Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, onde entregaram uma carta reivindicando melhores salários e condições de trabalho dignas. Paralelamente, vários estudos documentam os efeitos psicológicos negativos desta actividade.

Sem dúvida, é louvável que as empresas como a Vodafone assumam um papel na produção de literacia e na promoção da saúde mental. Mas não ignoremos a necessidade de transformar um mundo onde demasiadas circunstâncias levam, todos os dias, à sua deterioração. Contrariando a narrativa de que a saúde mental é algo pertencente ao indivíduo, como se impermeável ao seu contexto, as evidências científicas mostram claramente que a saúde mental depende de um conjunto de determinantes socioeconómicos – nomeadamente, o trabalho e a segurança laboral. Se uma planta começa a murchar, não a diagnosticamos com “síndrome da planta murcha” – antes mudamos as suas condições.

Publicado no P3 a 11-12-2022.

dominó, ep. 3 | tojó, o rapaz que matou os pais.

Em Agosto de 1999, Portugal fica em choque com o homicídio brutal que vitimou um conhecido médico em Ílhavo, Jorge Machado e a sua esposa, Maria Fernanda. O autor deste crime foi o próprio filho do casal, António Jorge, também conhecido como Tojó. Ele fazia parte de uma banda de death metal, Agonizing Terror, e durante muito tempo especulou-se o envolvimento de mais elementos neste crime macabro. Terá Tojó agido sozinho?

Um podcast da Rita Camarneiro, episódio com a minha participação.

the world as a whole | um outro habitar da cidade.

A curta-metragem documental The World As A Whole, de Ana Pires, estreou a 2 de Novembro, pelas 21h30, na sala Manoel de Oliveira do Cinema São Jorge em Lisboa, integrado na Festa do Cinema Francês. Inserida no projecto (Sem) Fronteiras, no qual a Underdogs desafiou oito artistas a criar intervenções de arte pública, explora processos artísticos e a ideia de diluição de fronteiras das cidades, sejam elas físicas ou psicológicas.

Mais de metade da população do planeta vive hoje nas cidades, taxa que aumentará para cerca 70% até meados do século. Nessa altura, as cidades abrigarão cerca de 5 mil milhões de pessoas. À medida que se expandem em largueza e altitude, os limites entre estes territórios vão-se diluindo. O mundo está a transformar-se numa megapolis, multicultural, multifacetada e hipertecnológica, que um dia excederá as capacidades para nela se viver com qualidade e segurança. Paradoxalmente, a cada semana, cerca de 3 milhões de pessoas em todo o mundo migram para cidades em busca de condições para que possam ser mais felizes.

A experiência humana na cidade é marcada por contradições. Ambientes subjectivamente mais favoráveis ao bem-estar e à qualidade de vida são, na verdade, marcados por enormes demandas (de habitação, emprego, transportes, acesso à saúde e a outros serviços), às quais se juntam o ritmo implacável da vida urbana, a escassez de recursos e a ausência de respostas adequadas. Este quadro resulta na degradação do ambiente, no aumento da pobreza, na precariedade laboral e habitacional, no aumento das desigualdades e, com tudo isto, em fenómenos de estigmatização e exclusão social, e uma probabilidade ampliada de problemas de saúde física e mental. Entre eles, a solidão – a famosa epidemia do século. O isolamento social relaciona-se, por exemplo, com o aumento de problemas cardiovasculares e da depressão (hoje, a principal causa de incapacidade no mundo), bem como com a mortalidade precoce – danos semelhantes aos provocados pelo tabaco ou pela obesidade.

Atravessando uma qualquer artéria da urbe, é possível que nos sintamos mais sós que num prado deserto. Esse sentimento de estar fisicamente próximo, mas socialmente isolado pode levar a menor disponibilidade para criar e manter laços sociais e participar activamente na comunidade. Alguns chamam-lhe polidez negativa – uma tendência para ignorar os outros quando vivemos rodeados de muita gente. Mas tais laços são vitais para desenvolver a capacidade de reduzir desigualdades e diferenças percebidas, construir valores partilhados e resolver, em conjunto, problemas e necessidades concretos das pessoas e da comunidade. Não por acaso, a urbanização é um fascínio, mas também um abismo. Porque imparável, a sua importância é reconhecida no 11º Objectivo de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030, Cidades e Comunidades Sustentáveis, centrado nas soluções para o amplo conjunto de tensões a que as cidades nos submetem. É uma definição lata. Mas inclui metas como o robustecimento dos sistemas de transportes, a redução da poluição do ar ou a melhoria do acesso a espaços verdes. Na ciência, multiplicam-se estudos sobre as formas de converter as cidades em lugares mais saudáveis para se viver – combatendo a pobreza, diminuindo a desigualdade, a discriminação e a exclusão e aumentando a sustentabilidade, a segurança, a participação comunitária e a coesão social. Ao mesmo tempo, a associação entre ambiente urbano e problemas sociais e de saúde mental permanece intuitiva e alvo de interesse, quer no senso comum, quer na cultura – na fotografia, na pintura, no cinema ou na arte urbana.

O projecto (Sem) Fronteiras e a reinvenção da cidade

O acesso à cultura, à arte e à participação artística têm a capacidade de criar sentidos, sensibilizar para problemas reais, estimular a empatia e contribuir para comunidades menos ansiosas, mais generosas e mais coesas. É este o pano de fundo do projecto (Sem) Fronteiras, no qual a Underdogs desafiou oito artistas a criar intervenções de arte pública em quatro cidades geminadas entre Portugal e França. As quatro intervenções colaborativas, movidas pelo propósito de promover a arte como experiência quotidiana, exploram a ideia da diluição de fronteiras das cidades, sejam estas visíveis ou invisíveis (dito de outra forma, físicas ou psicológicas) procurando, ao mesmo tempo, tornar o objecto artístico acessível, experimentado, partilhado e partilhável.

Do projecto emergiu a curta-metragem documental The World as a Whole. Realizado por Ana Pires, o filme levanta o véu sobre o processo criativo, abordando um dos mais vincados traços do nosso tempo – habitar a cidade em expansão – por via de motes específicos. Em Capbreton, Wasted Rita e Elea Jeanne Schmitter trabalham a experiência do pôr-do-sol como fenómeno simultaneamente universal e individualmente vivido. Na Nazaré, Tamara Alves & YZ eternizam, num mural, a velha prática da secagem do peixe, solevando questões sobre o futuro da actividade, num momento em que as artesãs tomam nas mãos as suas escolhas e outros destinos; em Bordéus, Add Fuel e L’Atlas combinam as suas assinaturas artísticas num possível diálogo entre o antigo e o contemporâneo. E no Porto, ±MaisMenos± e RERO desafiam verdades da sociedade capitalista, sobrepondo-lhes aforismos que sugerem a necessidade de repensar utopias contemporâneas e reinventar lugares incontestados do nosso pensamento.

As intervenções de arte pública aqui retratadas alertam para os muitos contributos da arte e da intervenção artística para processos de mudança social, de construção da cidadania e de integração das pessoas na cidade, sublinhando aquilo que lhes é comum. De facto, a arte pública, arredada dos espaços de tradicionais e entregue a quem depois a reinventa (nem que, apenas, com o olhar), é parte da solução para os desafios da urbe do futuro, em particular, se integrada numa perspectiva interdisciplinar, vocacionada para envolver as pessoas na construção do espaço público e na identidade urbana – nas suas dimensões de lugar partilhado e de reminiscência colectiva. É ainda garantia do direito à cultura como meio de fruição, formação, informação e memória, ferramenta do pensamento crítico e possibilidade de encontro e (re)conciliação com os outros e com o futuro.

Publicado no Le Monde Diplomatique, edição portuguesa.

saúde mental primeiro: a propósito do dia mundial da saúde mental 2022

A 10 de Outubro de 1992, a Federação Mundial de Saúde Mental, organização internacional que tem por missão a sensibilização pública para a Saúde Mental e a melhoria dos cuidados dirigidos aos que sofrem de tais problemas, assinalou, pela primeira vez, o Dia Mundial da Saúde Mental. Sem tema específico nos primeiros anos, a iniciativa depressa ganhou popularidade, focando-se, já em 1994, no objectivo de “Melhorar a qualidade dos serviços de Saúde Mental em todo o mundo”.

Mas apesar da sua relevância, tal meta que permanece por concretizar. Apesar do aumento da prevalência dos problemas de Saúde Mental em todo o mundo, o seu impacto na vida das pessoas, famílias e comunidades (aumento da pobreza, do desemprego e precariedade, das desigualdades ou da exclusão social) e as graves violações de direitos humanos que lhes estão associadas, a (falta de) Saúde Mental continua a ser percebida como parente pobre da Saúde pela população e políticas públicas. E ainda que algum caminho esteja a ser feito no sentido da normalização das questões da Saúde Mental e da desconstrução do estigma, a literacia em torno do tema é ainda escassa e os apoios financeiros e infraestruturas insuficientes.

Na verdade, três décadas volvidas sobre o nascimento do Dia Mundial da Saúde Mental, a situação é mais crítica do que nunca. Se antes de 2020, os problemas de Saúde Mental estavam já entre os principais contribuintes para a carga global de doença (com custos económicos até 4,2% do PIB), o quadro enegreceu com a crise socio-económica desencadeada pela pandemia (a prevalência global de ansiedade e depressão aumentou em cerca de 25%), agora agravada pela actual situação de guerra na Europa. Hoje, cerca de mil milhões de pessoas no mundo vivem com problemas de Saúde Mental. O nosso país é o segundo da Europa com maior prevalência destes problemas (cerca de 23% da população) e uma das nações da OCDE onde a taxa de necessidades não satisfeitas de cuidados de Saúde Mental é mais elevada: Existem apenas 250 psicólogos/as nos Cuidados de Saúde Primários, ou seja, 2,5 psicólogos/as para cada 100.000 utentes. As consequências sociais e económicas são profundas – por exemplo, as 5.532.708 embalagens de antidepressivos consumidas no primeiro semestre de 2022 (mais 8,2% que em 2021) custaram 22,2 milhões de euros ao SNS. Paradoxalmente, estimando-se que, nos próximos dez anos, a depressão sobrecarregue os países mais do que qualquer doença, os Estados continuam a gastar menos de 2% de seus orçamentos de Saúde em Saúde Mental.

Reconhecendo a gravidade da situação e a urgência de a inverter, “Fazer da Saúde Mental e do bem-estar para todos uma prioridade mundial” é o lema do Dia da Saúde Mental 2022, uma meta globalmente alinhada com a Agenda 2030: todos os objectivos de desenvolvimento sustentável contribuem, sem excepção, para a promoção da Saúde Mental e prevenção de problemas neste âmbito, já que a Saúde Mental é indissociável dos grandes desafios societais do nosso tempo, impactando e sendo impactada por eles.

Nós, Psicólogos e Psicólogas, temos aqui um amplo papel: não apenas na prevenção, intervenção, investigação e promoção da literacia em Saúde e em Saúde Mental, mas no apoio, alicerçado na ciência psicológica, à tomada de decisão política sobre questões tão diversas como o trabalho e o desenvolvimento sustentável, a prevenção de riscos psicossociais, a adopção de estilos de vida saudáveis, a educação inclusiva, a promoção do envelhecimento activo, as alterações climáticas, os fluxos migratórios, o combate ao estigma, à desigualdade e à exclusão social, a erradicação da pobreza ou a promoção da paz. Que este dia nos inspire a reflectir sobre as formas como todos/as, nos muitos contextos em que actuamos, podemos e devemos agir em prol da construção de uma sociedade global mais próspera, justa, saudável e resiliente.

Publicado no blog Psicarreiras a 11-10-2022.

GOOD LUCK TO YOU, LEO GRANDE | achievable goals. that’s the path to happiness. there’s no point in wishing for the moon.

[Good Luck To You, Leo Grande, Sophie Hyde, EUA/UK, 2022]

Não é baseado numa peça, mas tem a aura do teatro: passa-se num único espaço (quase), sem banda-sonora (quase), com dois actores em diálogo (quase). A premissa: uma professora reformada, viúva, ansiosa por cortar amarras com uma vida sexual insatisfatória (Emma Thompson), contrata um prostituto jovem (Daryl McCormack), com o fito de finalmente experimentar uma lista muito específica de manobras-de-quarto.

O formato do desafio parece um pouco esquemático, mesmo para uma mulher de razão, habituada às dinâmicas da aprendizagem formal e à relação mestre-aprendiz – agora invertida, sublinhe-se. Há uma improbabilidade na ideia, mas também uma inconsistência entre a personalidade conservadora e reservada de Nancy e o desembaraço com que discute a sua vida e frustrações ou a naturalidade com que acolhe as histórias de Leo. Por seu lado, na sua juventude, Leo parece demasiado articulado e confortável com as suas próprias vulnerabilidades. Mas não é o verdadeiro nome dela, não é o verdadeiro nome dele, e tudo é mais simples quando se é outro que não nós.

Este não é um exercício de realismo. É um texto com agenda que faz, e bem, o uso do cómico, do desconfortável, do comovedor, mas também do inverosímil, para sugerir um debate em quatro capítulos: sobre a subvalorização do prazer feminino, o envelhecimento e a transformação da imagem, as contradições da falsa intimidade, as expectativas de pais e filhos, a auto-determinação na prostituição ou o papel terapêutico do 𝑡𝑟𝑎𝑏𝑎𝑙ℎ𝑜 sexual e, claro, a descoberta de que nunca é tarde. Se o desempenho do rapaz é algo insípido (às vezes, parece apenas marcar a contracena), a autenticidade e a exposição, emocional e física, da enorme Emma Thompson, enche os olhos de qualquer um que goste de cinema (e de teatro). E se 𝗚𝗼𝗼𝗱 𝗹𝘂𝗰𝗸 𝘁𝗼 𝘆𝗼𝘂 𝗟𝗲𝗼 𝗚𝗿𝗮𝗻𝗱𝗲 não vinga pelas conclusões a que chega, supera-se na coragem das questões que levanta e nas discussões que pode gerar depois do cair do pano (ou dos créditos finais). Só por isso, já vale a pena.

BLONDE | an actress wants to be seen.

[Blonde, Andrew Dominik, EUA, 2022]

De forma simples, Blonde é um retrato brutal de uma mulher vulnerável, maltratada e abusada, que atravessa a sua curta existência como personagem dentro de um filme onde nunca quis actuar. Nele, a câmara de Andrew Dominik examina 𝑎𝑑 𝑛𝑎𝑢𝑠𝑒𝑎𝑚 não apenas a figura curvilínea e a fragilidade psicológica de Marilyn, mas um conjunto de eventos violentos e gratuitos, embrulhados em manobras de cor, brilhos, neblinas, distorções e 𝑓𝑎𝑑𝑒 𝑜𝑢𝑡𝑠, onde Ana de Armas saltita entre a Norma Jean devastada e sedenta de afecto e a Marilyn explosiva e cintilante, num desempenho tão perfeito quanto ostensivamente manipulador.

A partir do que se sabe sobre Marilyn e o que se pode, certa ou erradamente, imaginar, será justo assumir o tanto que nunca saberemos, questionar que tipo de memória importaria preservar e até, na loucura, reflectir sobre os valores, atitudes e vícios de um sistema que ditou a trajectória trágica desta e de tantas outras mulheres. Mas não estamos perante um documentário ou tentativa de narrativa histórica, mas perante um exemplo de autofagia hollywoodesca, baseado numa obra assumidamente ficcionada, que, não pretendendo ser um biopic, nada devolve ou acrescenta, na sua liberdade artística, à mulher que retrata – bem pelo contrário. Alguns aspectos técnicos à parte – impecável direcção de arte e uma actriz que cumpre tudo aquilo que lhe terá sido pedido da caricatura (esperando, porém, que não fique na retina por este papel) – Blonde não é mais do que longo exercício de meta-exploração com detalhes de mau gosto. Fica a pergunta: Para que serve este filme?

não-monogamia e ideias (des)feitas.

Mais do que nunca, fala-se de novas configurações familiares e relacionais, e pelo meio, de não-monogamia. O conceito cada vez menos nos é estranho, porém, é ainda difícil entender e aceitar quem se comporta de forma diferente da maioria. A Biologia, a Psicologia e a História podem dar uma ajuda. Vamos desafiar duas ou três ideias?

A monogamia é um comportamento natural. Não parece existir qualquer tendência biológica para a monogamia. As espécies que a praticam estão em larga minoria (apenas 3% a 5% tem um comportamento monogâmico) e os humanos apenas passaram a organizar-se em núcleos monogâmicos a partir de dado momento histórico. Na verdade, a sua prática coincide com o surgimento do conceito de propriedade privada (e com este, o de herança). Está na base da primeira forma de núcleo social criada com base em condições materiais (e não naturais) – a família – e com ela, a primeira divisão do trabalho, cabendo ao homem o trabalho fora de casa e à mulher o trabalho doméstico, a gestação dos filhos e o cuidar dos filhos. Assim, a monogamia tem na sua origem, um propósito de organização social, económica e política. De forma simples, não diz respeito ao amor ou à quantidade de pessoas com quem nos relacionamos, mas antes às normas que regulam os afectos.

Monogamia, exclusividade e poder. Nascida num momento em que a paternidade apenas podia ser assegurada pela exclusividade da relação de determinada mulher com determinado homem, a monogamia permitia assegurar a transmissão da propriedade. Sendo o inverso irrelevante, esta circunstância induziu um diferencial de poder nas relações. Foram sempre as mulheres as mais penalizadas ao quebrar a regra da exclusividade – por exemplo, no adultério ou na prostituição. Esta última pode ser vista como um escape à monogamia que normaliza, para o homem, a violação do seu pressuposto central, enquanto a mulher é penalizada do ponto de vista moral, social, económico ou criminal. Este panorama traduz desigualdades de poder e de género que se perpetuam até hoje, mesmo em casais jovens – porque a educação e cultura continuam a ditar que o amor monogâmico é o amor bom e a exclusividade o seu alicerce. A linguagem aceitável do amor romântico (representado no cinema, na literatura, na fotografia ou até nas histórias infantis) tem apenas duas opções: exclusividade ou infidelidade (esta última levando, quase sempre, à ruptura). O amor romântico tem um claro paralelismo com a exclusividade que as religiões monoteístas exigem e que, desde há séculos, estão na base da nossa organização social, bem como com a ideia de pecado e culpa, de “sacrifício” de desejos ou impulsos por amor a Deus.

A maioria das pessoas é monogâmica. Teoricamente, sim. Mas intenção e comportamento são coisas muito diferentes. Na verdade, há adultério documentado em todas as culturas. Uma percentagem significativa dos casais monogâmicos viola o pressuposto basilar da exclusividade, apesar do modelo de “escada relacional” instituído – conhecer alguém, namorar, casar, ter filhos. Mais de ¼ dos adultos é sexualmente infiel aos parceiros, e outro tanto é “afectivamente” infiel (desenvolve afectos por outras pessoas, ocultados dos/as parceiros/as). Nas últimas gerações, muito raramente as pessoas têm um único parceiro durante toda a vida (em 2020, o rácio de divórcios por 100 casamentos foi de 91,5% em Portugal). Alguns autores falam da prática de monogamia-em-série – muitos parceiros, um de cada vez. Por outro lado, não há estatísticas precisas sobre não-monogamia. Um dos motivos poderá ser o estigma associado, alimentado pelo estereótipo sobre o não-monogâmico – ser promíscuo ou negligente, ser incapaz de ter relações “sérias” ou “com futuro” (que possam cumprir a “escada relacional” instituída) – e a discriminação por não ter uma relação “convencional”. O estigma está não apenas ligado à norma estatística, mas a questões culturais e religiosas: ser não-monogâmico é visto como “imoral”, apesar do elevado número de relações que experimenta algum tipo de infidelidade e desta ser consistentemente apontada como um dos principais motivos das separações e do elevadíssimo número de separações e divórcios.

O surgimento (?) da não-monogamia. Sabemos que, ao contrário do que se possa pensar, não é uma prática dos tempos modernos. A sua visibilidade renovada prende-se com mudanças profundas no papel social da mulher (possibilitado, ao longo do tempo, pelas lutas pelos direitos das mulheres, pela contracepção, pelo trabalho fora de casa, pelo direito ao voto e ao divórcio), com os avanços da ciência e com o declínio da família como unidade social e económica. Hoje, em caso de dúvidas sobre paternidade, é possível recorrer a um teste de ADN. É também verdade que a instabilidade económica, a mobilidade da força de trabalho e a necessidade de outros modelos de organização social (por exemplo, a partilha de casa entre várias pessoas) tem também contribuído para a desvalorização da própria instituição do casamento e, por arrasto, facilitado a reflexão e a normalização de outras possibilidades.

Poliamor = não-monogamia? O poliamor é uma prática onde os envolvidos têm vários parceiros amorosos/sexuais, com o conhecimento e consentimento de todos. A não-monogamia é uma designação mais ampla que descreve uma relação em que os participantes admitem, de forma explícita, a possibilidade de ter outros relacionamentos românticos e/ou sexuais – ou seja, os envolvidos não partem para a relação com a regra da exclusividade “escrita na pedra”. Nas relações de natureza não-monogâmica podem estabelecer-se vários protocolos, por exemplo, relações poliamorosas, relações abertas, relações “don’t ask/don’t tell”, anarquia relacional ou até relações onde, na prática, os envolvidos se comportam de forma monogâmica (ou seja, não têm outras relações, mas essa possibilidade não é interdita, a relação é aberta a essa hipótese). Curiosamente, casais que acordam ser não-monogâmicos podem ter menos relações subsequentes do que os monogâmicos – por hipótese, porque o elemento de transgressão e a adrenalina provocada por trair/enganar/esconder, poderosos ingredientes das relações extra-conjugais, são removidos da equação.

O mito da alma gémea. Uma das falácias do amor romântico prende-se com a expectativa de que a mesma pessoa preencha todas as nossas necessidades (paixão, apoio emocional, companhia, sociabilização, imprevisibilidade, aventura, satisfação sexual, parentalidade e o indiscutível conforto das rotinas). A prática desafia esta ideia. Mais ainda, não há qualquer evidência de que os sentimentos, emoções e desejos sejam exclusivos ou subtractivos (se assim fosse, só seria possível ter um amigo ou as mães/pais poderiam amar apenas um filho). No entanto, vários outros aspectos são subtractivos (tempo, energia, disponibilidade), o que torna as relações monogâmicas mais simples de gerir (não necessariamente melhores). Alguns argumentam que as relações não-monogâmicas assentam em três pilares: consentimento, comunicação e gestão do tempo.  

O papel do ciúme. O ciúme tem uma base biológica semelhante à ansiedade: ocorre quando percebemos uma ameaça, real ou imaginária, que nos faz sentir inseguros, enganados ou excluídos. Embora, em teoria, a monogamia possa actuar como amortecedor de experiências que o provocam (porque se baseia numa lógica de exclusividade), na prática não é assim, porque o ciúme é largamente alimentado por dependências geradas por sentimentos de exclusividade e posse – e por isso, é uma das bases de sustentação da ideia de amor romântico. Não é algo inerente ao amor, mas uma resposta ensinada a partir de atitudes culturais, que reforça dinâmicas de poder, especialmente penalizadoras para as mulheres: elas são mais estigmatizadas quando exibem ciúme (vistas como emocionalmente dependentes, mais fracas, mais frágeis) e mais atingidas por comportamentos violentos e abusivos justificados pelo ciúme (por exemplo, violência doméstica, psicológica e sexual, reforço da dependência emocional e financeira, comportamento controlador ou ameaçador por parte do parceiro, etc.). Maior abertura e transparência podem ajudar a perceber os verdadeiros motivos do ciúme e dissolver inseguranças. Por isso, casais não monogâmicos tendem a ser menos ciumentos. Os envolvidos sentem-se apoiados no processo de gestão de inseguranças e são mais abertos ao debate sobre as suas fontes: medo, baixa auto-estima ou qualquer outro problema na relação.

Os estudos. Existem, ainda, poucos estudos a este respeito, mas a maioria indica que a abertura afectiva ou sexual fortalece a relação. Níveis elevados de satisfação, confiança e compromisso podem relacionar-se não apenas com níveis mais elevados de honestidade, transparência, capacidade de comunicação e partilha, mas com a possibilidade de descentrar de uma única pessoa uma enorme responsabilidade. Do que se sabe, as relações não monogâmicas têm níveis semelhantes de investimento, compromisso, satisfação e duração, quando comparadas com relações monogâmicas. No entanto, os envolvidos exercem menor pressão sobre os parceiros e sentem menor pressão para atender a todas as suas necessidades. Relatam também que esta modalidade de relação facilita o conhecimento do outro e o desenvolvimento pessoal, correspondendo a uma maior autonomia e liberdade para a auto-descoberta, uma comunicação mais aberta e mais franca. Por exemplo, a possibilidade (e comprovada probabilidade) de atracção romântica e/ou sexual por outras pessoas é normalizada e deixa de ser encarada como traição ou sinónimo de falta de afecto. Outros benefícios apontados são: níveis mais baixos de ciúme e outras manifestações de insegurança, menos monotonia e maior entusiasmo face a novas experiências; aumento da satisfação sexual no vínculo primário (relação principal); sensação de liberdade combinada com segurança; possibilidade de expressão plena e de não ter que representar papéis.

Reforçando as palavras de Tânia Graça, nada disto é sinónimo da apologia da não-monogamia ou de qualquer outro tipo de configuração. Todos podemos e devemos escolher como queremos relacionar-nos connosco e com os outros. Nesse processo, porém, pode ser muito útil questionar as origens da nossa educação sentimental.

Publicado no P3 a 13-08-2022.